Raccord

Cinema e séries em contínua conexão. Entre planos, obras, épocas e olhares. Curadoria, notícias e tutoriais.

  • Richard Linklater lançou Waking Life em 2001, filme que explora consciência, existencialismo e a natureza dos sonhos através de uma colagem de segmentos narrativos. A obra se destaca pelo uso da técnica de rotoscopia, processo que transforma filmagens ao vivo em animação desenhada quadro a quadro. O resultado é uma experiência visual fluida que reforça a atmosfera onírica da narrativa.

    O filme acompanha um personagem sem nome que transita por diferentes encontros e conversas filosóficas, sem saber se está acordado ou sonhando. A estrutura fragmentada apresenta diálogos sobre livre-arbítrio, tempo, linguagem e morte. Entre os segmentos, destaca-se a participação de Celine e Jesse (Julie Delpy e Ethan Hawke), casal protagonista de Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995). A cena funciona como ponte entre os dois filmes, antecipando o reencontro que aconteceria em Antes do Pôr do Sol (Before Sunset, 2004).

    Linklater filmou as cenas com atores reais e depois coordenou uma equipe de animadores que redesenharam cada quadro digitalmente. O processo levou meses e resultou em estética instável, com linhas tremidas e cores que se movem independentemente dos objetos. Essa escolha visual não é apenas estilização, mas reforça o tema central do filme sobre a impermanência da percepção.

    Waking Life consolida o interesse de Linklater em narrativas que privilegiam diálogo e reflexão sobre ação. A rotoscopia amplifica a sensação de estranhamento e sustenta a premissa de que o protagonista pode estar preso em um sonho lúcido.

  • Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica é uma animação dirigida por Dan Scanlon. O filme combina fantasia urbana e drama familiar, usando um universo mágico como cenário para uma história íntima sobre perda, amadurecimento e vínculos fraternos.

    A narrativa acompanha Ian e Barley Lightfoot, dois irmãos elfos que cresceram sem o pai. Ao descobrirem um feitiço capaz de trazê-lo de volta por um único dia, eles embarcam em uma jornada para completar o ritual. A produção tem forte caráter autobiográfico. Dan Scanlon já declarou que o filme nasce de sua própria experiência de ter perdido o pai cedo demais e de ter construído referências masculinas a partir do convívio com o irmão mais velho.

    A direção opta por escolhas visuais que reforçam a ideia de um mundo que abandonou a magia em favor da praticidade. Os personagens habitam um ambiente híbrido, onde criaturas míticas vivem rotinas suburbanas, criando contraste entre fantasia e banalidade cotidiana. Essa oposição dialoga diretamente com o arco dos personagens, que precisam reaprender a acreditar em algo além do imediato.

    A obra trata a paternidade como função relacional, não como título biológico. O desfecho reorganiza o sentido da jornada e reposiciona o olhar do espectador sobre quem, de fato, exerceu o papel de guia. É uma das maiores homenagens àqueles que nos ajudam a encontrar nosso lugar no mundo.

    Feliz dia dos pais para todos!

  • ‘Modern Love’ (Amazon Prime) é uma série antológica inspirada na célebre coluna do New York Times, criada em 2004 por Daniel Jones, que reúne ensaios sobre as mais diversas experiências amorosas.

    Cada episódio adapta um desses relatos reais, apresentando histórias independentes sobre relacionamentos contemporâneos. O formato permite um elenco rotativo de estrelas, como Anne Hathaway, Dev Patel, Tina Fey, Andrew Scott, entre outros.

    No meu caso, foi paixão à primeira vista. A série me conquistou desde o episódio inicial, com sua sensibilidade ao retratar as complexidades do amor moderno. Quero que ela tenha tantas temporadas quanto ‘Grey’s Anatomy’.

  • “ “04- Fazer movimentos casuais que o outro gosta;
09- Compartilhar um ataque de riso;
10- O mais importante: Seja Você Mesmo” ”
10 etapas para se apaixonar por alguém. Da série Shippados (primeira temporada, quarto episódio). No programa, Tatá...

    “04- Fazer movimentos casuais que o outro gosta;
    09- Compartilhar um ataque de riso;
    10- O mais importante: Seja Você Mesmo”

    10 etapas para se apaixonar por alguém. Da série Shippados (primeira temporada, quarto episódio). No programa, Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch tentam desvendar a dinâmica dos relacionamentos atuais. Disponível na GloboPlay.

    Criado por Fernanda Young e Alexandre Machado, da inesquecível sitcom “Os Normais”, ‘Shippados’ é o capítulo final da parceria criativa da dupla. No ano passado, Fernanda Young faleceu por complicações decorrentes da asma.

  • “Um Dia de Fúria” (“Falling Down”, 1993), meu filme preferido de Joel Schumacher, cineasta que faleceu recentemente. Nele, um pacato cidadão (uma dos melhores performances de Michael Douglas) se rebela contra o que considera disfuncional na...

    “Um Dia de Fúria” (Falling Down, 1993) é meu filme preferido de Joel Schumacher, cineasta que faleceu recentemente. A narrativa acompanha um cidadão comum, interpretado por Michael Douglas em uma de suas melhores performances, que se rebela contra o que considera disfuncional na sociedade contemporânea. O personagem percorre Los Angeles confrontando frustrações cotidianas que escalam para situações cada vez mais extremas.

    Frequentemente, Schumacher é associado ao fracasso de “Batman e Robin” (1997), que comprometeu temporariamente sua reputação. Contudo, sua filmografia apresenta trabalhos consistentes. “O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas” (1985) captou o zeitgeist da geração yuppie dos anos 1980. “O Cliente” (1994) e “Tempo de Matar” (1996), ambas adaptações de John Grisham, demonstram sua habilidade com thrillers jurídicos. “Oito Milímetros” (1999) explorou o submundo com Nicolas Cage, enquanto “Por Um Fio” (2002) desenvolveu tensão claustrofóbica em tempo quase real com Colin Farrell confinado em uma cabine telefônica.

  • Nesse ano, toda a seleção do Festival Varilux (insta: @variluxcinefrances) estará disponível online. São 50 títulos para assistir gratuitamente até o dia 25 de agosto. Além de novas opções, a programação desse ano resgata filmes de edições...

    Nesse ano, toda a seleção do Festival Varilux (insta: @variluxcinefrances) estará disponível online. São 50 títulos para assistir gratuitamente até o dia 25 de agosto. Além de novas opções, a programação desse ano resgata filmes de edições passadas.

    Em www.festivalvariluxemcasa.com.br, você passeia por todos os títulos. Se preferir, pode escolher por temática: “História e cultura da França”, “Comédias para diversão em família”, “Reencontre os grandes nomes do cinema francês”, dentre outras.

  • Uma das sensações recentes da TV norte-americana, “Projeto Livro Azul” (Project Blue Book) é uma das atrações do canal History Brasil. Baseado em casos verídicos arquivados das décadas de 1950 e 1960, o seriado é considerado uma versão realista de “Arquivo X”. Produzido por Robert Zemeckis (“De Volta Para o Futuro”, “Contato” e “Forrest Gump”), “Projeto Livro Azul” já garantiu uma nova leva de episódios.

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    Acima, o fotógrafo Chase Jarvis celebra a arte de registrar momentos e convida o mundo a perseguir seus próprios esforços criativos. Para ele, é necessário tirar fotos que ninguém, além de você, pode registrar. Em foco, o cotidiano de cada um, a forma como você percebe esses momentos.

    Em 2009, Jarvis lançou The Best Camera Is The One That’s With You, livro que reúne fotos que ele tirou com seu iPhone. Não está só. Outros fotógrafos também abraçaram a arte do possível.

    Com isso, defendem o valor artístico de equipamentos muitas vezes esnobados. De acordo com Javis, imagens não tem a ver com megapixels, mas sim com histórias e momentos (vídeo abaixo).

    Claro, Jarvis não usa apenas celulares. Nos vídeos abaixo, ele mostra seu equipamento e como realiza seu trabalho.

    Chase Jarvis também lançou vários vídeos online. Abaixo, ele entrevista o empreendedor e escritor Tim Ferriss.

    Dicas para tirar fotografias melhores

  • Documentários sobre bastidores sempre fizeram parte do ecossistema do cinema. Extras em DVDs e Blu-rays ajudaram a consolidar esse material como complemento natural da experiência cinematográfica, oferecendo ao público acesso controlado ao processo de produção. O que se torna mais raro e revelador é quando o próprio fracasso deixa de ser ocultado e passa a ocupar o centro da narrativa, transformando projetos interrompidos em estudos sobre os limites criativos, técnicos e humanos do cinema.

    O Inferno de Henri-Georges Clouzot (2009) parte justamente dessa ausência. O documentário revisita L’Enfer, projeto ambicioso do cineasta francês interrompido após poucas semanas de filmagem nos anos 1960. A partir de material recuperado décadas depois, a obra reconstrói experimentações visuais radicais e sugere o impacto que o filme poderia ter tido. Mais do que lamentar o inacabado, o documentário revela um cinema em estado de risco permanente.

    Em Lost in La Mancha (2002), dirigido por Keith Fulton e Louis Pepe, o fracasso é acompanhado em tempo real. A tentativa de Terry Gilliam de adaptar Dom Quixote se desfaz diante de uma sucessão de problemas: estouro de orçamento, ruído constante de exercícios militares da OTAN nas proximidades da locação, enchentes que destroem equipamentos e a condição de saúde de Jean Rochefort, impedido de seguir no papel principal. A produção é abandonada, mas o registro se transforma em um retrato da vulnerabilidade de projetos autorais de grande escala. A experiência dialoga com o trabalho anterior da dupla em The Hamster Factor and Other Tales of Twelve Monkeys (1996), que já revelava os bastidores de um filme de Gilliam.

    Nem todo colapso surge de uma experiência inconclusa. Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse (1991) acompanha a produção de Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola, marcada por atrasos, clima extremo nas Filipinas e o ataque cardíaco sofrido por Martin Sheen. Dirigido por Eleanor Coppola, o documentário expõe o desgaste físico e psicológico da equipe.

    Esses documentários funcionam como contraponto ao discurso oficial da indústria, historicamente orientado a narrativas de sucesso e controle. Ao expor orçamentos estourados, equipes adoecidas, decisões tomadas sob pressão e forças externas incontroláveis, eles evidenciam o cinema como prática material, instável e sujeita ao acaso. Quando o fracasso é registrado sem filtro promocional, o que emerge é um conjunto de lições concretas sobre o fazer cinematográfico, distante da retórica celebratória dos materiais institucionais.