O encerramento oficial de Lost ocorreu em maio de 2010, após seis temporadas, e deixou parte do público dividida. Três meses depois, o lançamento em DVD da temporada final incluiu um episódio extra, The New Man in Charge, que funcionou como epílogo e esclareceu pontos que haviam permanecido em aberto no desfecho original. O material ofereceu respostas adicionais e ajudou a fechar arcos narrativos de maneira mais coesa. [Spoilers👇]
O episódio confirma que os ursos polares faziam parte dos experimentos conduzidos pela Iniciativa Dharma, voltados à pesquisa científica e ambiental na Ilha. O Quarto 23 tem sua função explicitada como espaço de lavagem cerebral e contenção psicológica.
Já Walt Lloyd reaparece como peça-chave ao ser recrutado por Hurley e Ben para retornar à Ilha, justificando sua condição especial após anos afastado da trama principal. Por fim, os lançamentos de suprimentos da Dharma são explicados como parte da logística de manutenção das operações e experimentos do grupo.
Ao complementar o episódio final exibido na TV, The New Man in Charge não reescreve o desfecho de Lost, mas oferece um fechamento mais pragmático para questões que geraram debate entre os fãs.
Reportagem do NY Times mostra que dramas e comédias perderam força nas bilheterias dos EUA e Canadá. Nenhum dos principais lançamentos recentes desses gêneros conseguiu um desempenho significativo, mesmo com elencos estrelados. Outubro somou 445 milhões de dólares, o pior resultado não ligado à pandemia, e reforçou que o público não tem priorizado esses filmes nos cinemas.Produções que antes poderiam ultrapassar com facilidade a marca simbólica dos 50 milhões agora falham. After the Hunt, que custou 70 milhões, arrecadou apenas 3,3 milhões; Kiss of the Spider Woman teve desempenho ainda mais baixo. A percepção na indústria é que dramas e comédias só competem quando parecem um “evento”.
Por outro lado, franquias, terror e animação continuam estáveis. Predator: Badlands abriu com 40 milhões e superou projeções.
A retração se acentuou após a redução da janela exclusiva das salas, que antes era de 90 dias. Com acesso rápido ao digital, muitos espectadores preferem ver dramas e comédias em casa. Tentativas dos donos de cinemas de ampliar esse prazo não avançaram.
Nem os filmes elogiados escapam da tendência. Die My Love não passou dos 3 milhões na estreia, e Springsteen: Deliver Me From Nowhere ficou longe de cobrir seus custos. Mesmo assim, os estúdios seguem lançando filmes no cinema, já que o Oscar ainda exige presença na grande tela.
Há 30 anos, 12 Monkeys chegava aos cinemas. A ficção científica estreou nos Estados Unidos em 29 de dezembro de 1995 e se consolidou como um dos títulos mais densos do gênero ao articular viagem no tempo, pandemia viral e paradoxos temporais com ambição narrativa incomum. Dirigido por Terry Gilliam e escrito por David Peoples e Janet Peoples, o filme é inspirado livremente no curta experimental La Jetée (1962), de Chris Marker, construído quase inteiramente a partir de fotografias estáticas.
A história se passa em 2035, quando James Cole, interpretado por Bruce Willis, supostamente é enviado ao passado para investigar a origem de um vírus que devastou a população mundial. Tratado como instável mental, Cole tenta convencer a psiquiatra Kathryn Railly (Madeleine Stowe) de que suas memórias do futuro são reais. Nesse percurso, cruza com Jeffrey Goines (Brad Pitt), um paciente de hospital psiquiátrico cujos discursos caóticos confundem delírio, crítica social e pistas centrais da narrativa. Christopher Plummer e David Morse completam o elenco.
O filme marcou um momento específico na carreira de Gilliam, cineasta cuja trajetória começou no cartum e na animação antes de ganhar projeção como integrante do Monty Python. Após codirigir Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, Gilliam consolidou uma filmografia autoral com títulos como Brazil e As Aventuras do Barão de Munchausen. Sua abordagem visual e narrativa encontra em 12 Monkeys uma síntese madura entre delírio estético e estrutura clássica.
Visualmente, o filme é marcado pela fotografia de Roger Pratt, colaborador recorrente de Gilliam, e pela trilha sonora de Paul Buckmaster, que reforça a sensação constante de desorientação temporal. O figurino de Julie Weiss contribui para a atmosfera de um futuro degradado, mais próximo da ruína industrial do que da ficção científica higienizada.
O reconhecimento artístico foi amplo. 12 Monkeys recebeu indicações ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, para Brad Pitt, e Melhor Figurino. Pitt venceu o Globo de Ouro na mesma categoria e o filme foi consagrado no Saturn Awards como Melhor Ficção Científica, além de render prêmios adicionais ao ator e ao figurino. Com arrecadação mundial de US$ 168,8 milhões, superou amplamente seu orçamento inicial e manteve alta aprovação crítica ao longo dos anos.
Anos após seu lançamento, a obra ainda reverbera. Em 2015, deu origem a uma série televisiva homônima, evidenciando a longevidade de seu universo narrativo.
“O medo foi sempre muito real para mim. Então, o que fiz foi me livrar de meus medos, transferindo-os para os outros, o público.”
Steven Spielberg, em sua biografia, explica o papel do medo em sua obra.
Há 50 anos, chegava aos cinemas brasileiros um dos clássicos do diretor, “Tubarão” (1975). No enredo, a tranquilidade de uma cidade litorânea é interrompida por uma série de ataques atribuídos a um tubarão-branco. Diante da pressão política para manter a cidade aberta durante o verão, o chefe de polícia (Roy Scheider) une forças com um oceanógrafo (Richard Dreyfuss) e um caçador de tubarões (Robert Shaw) para eliminar a ameaça.
O trio central sustenta o filme tanto pelo conflito externo quanto pelas tensões internas entre razão científica, autoridade institucional e obsessão pessoal. Tubarão foi indicado a quatro Oscars e venceu três, incluindo Melhor Montagem, Melhor Trilha Sonora Original para John Williams e Melhor Som.
O caminho para o sucesso, porém, foi cheio de obstáculos. Problemas com o animal mecânico mudaram o destino da produção. Com dificuldade em exibir o animal na tela, Spielberg optou pelo terror psicológico. Em “Tubarão”, o medo surge não pela presença constante do predador, que pouco aparece no filme. É a possibilidade do seu surgimento, inesperada e fatal, que apavora o público. A bela trilha de John Williams amplifica o temor. Todos esses elementos semeiam o medo. Através da imaginação, nós fazemos a tensão crescer.
O título também é considerado o primeiro blockbuster do cinema. Seu lançamento foi precedido por uma campanha de divulgação sem precedentes. O trailer, que parecia uma reportagem, foi apresentado um ano antes do filme estrear. “Tubarão” também ganhou propaganda na TV, algo inédito. Resultado: todos queriam ver “Tubarão”. Deixar de ir ao cinema seria o mesmo que não ser convidado para uma festa popular. A venda de produtos temáticos, como camisas e bonés, também ganhou tração com o sucesso de “Tubarão”.
O filme apontou novos rumos para o cinema enquanto negócio. Se antes os estúdios reservavam as grandes estreias para o fim de ano, “Tubarão” antecipou o auge da experiência cinematográfica para julho, quando verão e férias escolares se encontram nos EUA. Desde então, os jovens são o principal público almejado por Hollywood.
“[Minha mãe] nunca tinha visto uma vida parecida com a sua na tela. Quando viu que era possível se afirmar na arte do cinema, ela chorou e sorriu.”
Essa frase da escritora Alice Walker resume a alma de “A Cor Púrpura”. Lançado em 1982 e vencedor do Pulitzer, o livro acompanha a jornada de Celie. Enfrentando um contexto de severa opressão e desafios familiares profundos, ela encontra refúgio ao escrever cartas para Deus e para a irmã distante.
Essa potência chegou aos cinemas pela primeira vez há 40 anos pelas mãos de Steven Spielberg. O filme marcou a estreia de Whoopi Goldberg (Celie) e Oprah Winfrey (Sofia), além de trazer Danny Glover como o terrível “Mister”. A produção entrou para a história por dois motivos: sua carga emocional devastadora e uma das maiores injustiças do Oscar. Mesmo com 11 indicações, o filme saiu de mãos vazias, embora Spielberg tenha sido reconhecido pelo sindicato dos diretores.
Em 2023, a história ganhou nova versão cinematográfica, desta vez baseada no musical da Broadway. A produção contou com Spielberg, Quincy Jones e Oprah. O elenco brilha com Fantasia Barrino (Celie) e Danielle Brooks (Sofia), que já viviam os papéis no teatro, ao lado de Taraji P. Henson e da cantora H.E.R.
Essa semana é a última oportunidade para conferir Estação Onze (Station Eleven), que deixa o catálogo da HBO Max em 15 de dezembro. Criada por Patrick Somerville (The Leftovers), a minissérie adapta o romance homônimo de Emily St. John Mandel, apostando em uma abordagem sensível e pouco convencional sobre colapso, afetos e arte.
A trama articula múltiplas linhas do tempo para examinar os efeitos de uma pandemia. Vinte anos após o colapso da civilização, a jovem Kirsten (Mackenzie Davis) integra a Sinfonia Itinerante, um grupo de artistas que percorre comunidades isoladas encenando Shakespeare. O percurso do grupo os coloca em rota de colisão com um culto violento, cujas origens estão ligadas ao passado de alguns personagens centrais.
Em relação ao livro, a adaptação promove mudanças estruturais significativas. A mais importante é o aprofundamento da relação entre Jeevan (Himesh Patel) e a jovem Kirsten (Matilda Lawler). Enquanto no romance eles se separam logo no início, a série estende essa convivência por anos, transformando-a no principal eixo afetivo da narrativa. Também há a transposição do cenário de Toronto para Chicago e uma reformulação do personagem Tyler, que recebe um arco mais desenvolvido e complexo.
O resultado foi amplamente reconhecido pela crítica, rendendo sete indicações ao Emmy. Mais do que sobreviver, Estação Onze sugere que arte, memória e vínculo humano são condições fundamentais para a vida continuar pulsando.
Há 35 anos, “Esqueceram de Mim” chegava discretamente aos cinemas norte-americanos. Com o tempo, conquistou o público e se consolidou como clássico natalino. Mais que isso: tornou-se a comédia live-action de maior bilheteria da história, arrecadando US$ 285 milhões apenas nos Estados Unidos, desempenho superado exclusivamente por animações.
O roteiro foi assinado por John Hughes, responsável por marcos da comédia dos anos 1980 como “Curtindo a Vida Adoidado” (1986), “O Clube dos Cinco” (1985), “Gatinhas e Gatões” (1984) e “Férias Frustradas” (1983). Apesar do currículo repleto de sucessos, Hughes demonstrava insegurança quanto à premissa. Ele temia que o público considerasse inverossímil uma família esquecer um filho em casa durante as férias.
Curiosamente, diversos momentos icônicos surgiram por improviso. A cena em que Macaulay Culkin coloca as mãos no rosto, expressando surpresa, não estava no roteiro original. Toda a participação especial de John Candy também foi improvisada: o comediante criou suas próprias falas.
A direção coube a Chris Columbus, então conhecido principalmente como roteirista de “Gremlins” (1984), “Os Goonies” (1985) e “O Enigma da Pirâmide” (1985). O filme marcaria sua consolidação como diretor.
Dois anos depois, equipe e elenco principal se reuniriam em “Esqueceram de Mim 2: Perdido em Nova York” (1992). A franquia teria outras continuações, porém com elenco e equipe criativa diferentes.
A série “Alien: Earth” estabelece o planeta Terra como o novo cenário para o conflito da franquia. A história é um prelúdio, com eventos que ocorrem dois anos antes do filme lançado em 1979.
O projeto é liderado por Noah Hawley, um criador reconhecido por sua habilidade em ampliar franquias já estabelecidas. Hawley é um mestre em reimaginar universos. Em vez de simplesmente adaptar, ele reinventa. Com “Fargo” (originalmente um filme) e “Legião” (HQ), Hawley criou séries de televisão com identidades próprias.
Disponível na Disney+, “Alien: Earth” reforça a reputação criativa de Hawley. A produção se posiciona como uma das propostas mais singulares e relevantes da nova temporada audiovisual, oferecendo uma abordagem renovada ao terror clássico.
Nesse contexto, o elenco reúne Sydney Chandler, que interpreta a meta-humana Wendy, e Timothy Olyphant, no papel de um mentor sintético. A relação entre os dois funciona como um dos principais eixos dramáticos da série, articulando a tensão entre criação e criador e, sobretudo, o processo de amadurecimento que atravessa a protagonista.
A escolha do nome de Wendy não é casual: trata-se de uma referência a Peter Pan. Na obra de J. M. Barrie, Wendy é a personagem que aceita o crescimento e a responsabilidade, abandonando a Terra do Nunca para seguir adiante. A série ressignifica esse simbolismo ao inseri-lo em um cenário distópico.
Wendy não é a única alusão ao universo de Peter Pan. Existe uma equipe de híbridos criada a partir de crianças humanas que estavam à beira da morte. O cientista-bilionário por trás do experimento — um adulto que se recusa a “crescer”, no sentido emocional e ético — batiza o grupo com os nomes dos personagens originais de Barrie. Contudo, essa nova identidade cobra um preço alto: para sobreviver, essas crianças precisam deixar suas famílias, tornando-se órfãs em uma Terra do Nunca tecnológica.
Embora não envelheçam, elas evoluem, ainda que por meio de conflitos, rupturas e perdas. Lançadas em um jogo de poder que não compreendem totalmente, permanecem distantes de casa. Com o tempo, porém, aprendem a reconhecer suas capacidades e a dominar o próprio destino, movimento que ganha força no desfecho intenso da temporada, que antecipa a segunda temporada, já confirma.
Há cinco anos, a Netflix lançava a terceira e última temporada de Dark, série alemã de drama, suspense e ficção científica criada por Baran bo Odar e Jantje Friese. Concebida desde o início como uma narrativa fechada em três ciclos, a produção se destacou por assumir a complexidade como método e não como ornamento. Cada detalhe importa, cada escolha reverbera, e nada existe fora do encadeamento maior que estrutura a história.
A trama se passa na fictícia cidade de Winden, onde o desaparecimento de duas crianças desencadeia uma busca por respostas que rapidamente revela conexões com eventos anteriores. À medida que segredos familiares vêm à tona, o que parecia um mistério local se transforma em um sistema narrativo que atravessa gerações e múltiplas linhas temporais. A série constrói sua lógica acumulando relações de causa e efeito, muitas vezes esclarecendo o presente apenas após expandir ainda mais o enigma. O resultado desafia a leitura linear e exige atenção constante do espectador.
A recepção crítica refletiu esse rigor. A série mantém nota 8,7 no IMDb e aprovação superior a 90% no Rotten Tomatoes entre críticos e público. Em votações populares promovidas pelo próprio site, Dark chegou ao topo em disputas internas de produções da Netflix, superando títulos mais populares.
Atualmente em cartaz, “Memórias de um Caracol”, longa de Adam Elliott indicado ao Oscar, não é uma animação comum. Assim como em seus outros trabalhos, como o oscarizado “Harvie Krumpet” e o aclamado “Mary e Max”, o filme lança luz sobre as dores da vida com humor e empatia. Vencedor do prêmio Cristal no Festival de Annecy, prestigiado festival de animação, a obra segue a trajetória de Grace Pudel, mulher que carrega uma vida marcada por perdas e desenvolve uma relação obsessiva com caracóis como forma de proteção contra o mundo. O filme conta com as vozes de Sarah Snook, Kodi Smit-McPhee, Eric Bana e Jacki Weaver. Elliott baseou a narrativa em experiências pessoais, incluindo sua própria mãe e amigos que enfrentaram traumas de infância.
[spoiler] Grace vive na Austrália dos anos 1970. Nascida com fissura labial, ela e o irmão gêmeo Gilbert são criados por Percy, ex-malabarista de rua tornado paraplégico após um acidente. Quando o pai morre durante o sono, os irmãos são separados e enviados para lares adotivos em extremos opostos do país. Grace vai para Canberra, onde é criada por um casal de liberais sexuais ausentes. Gilbert, por sua vez, acaba sob os cuidados de uma família de fundamentalistas religiosos em Perth. A distância física e as cartas trocadas ao longo dos anos moldam a existência de Grace, que se fecha progressivamente, acumulando objetos relacionados a caracóis. [spoiler]
A direção reafirma a assinatura de Elliott. O chamado estilo “chunky wonky” define um universo visual deliberadamente imperfeito, com bonecos assimétricos, cenários irregulares e texturas visíveis. Essa escolha estética não é decorativa. Ela reforça o sentimento de inadequação que atravessa a narrativa.
No roteiro, Elliott mantém sua conhecida economia de diálogos. Muitas informações são transmitidas por imagens, silêncios e pequenos gestos. O humor aparece de forma seca e às vezes desconfortável, funcionando como contraponto às dores apresentadas, sem diluí-las. Aliás, o diretor não atenua as dores da protagonista: Grace sofre bullying, abandono e manipulação emocional. Mas o filme não explora o sofrimento como espetáculo. Há economia na forma como as tragédias são apresentadas, sem prolongamentos desnecessários ou insistência em pontos já estabelecidos.
As vozes do elenco entregam performances contidas, evitando exageros típicos de animação. Sarah Snook em particular encontra tom apropriado para Grace adulta, transmitindo desgaste sem cair em autopiedade. A personagem de Jacki Weaver, Pinky, funciona como contraponto necessário. Idosa excêntrica, ela representa a possibilidade de vida plena mesmo diante de adversidades.
A obra se insere no contexto de animação adulta contemporânea que rejeita associação automática entre técnica e público infantil. Ao lado de trabalhos como Anomalisa, o filme de Elliott demonstra que stop-motion pode ser veículo para exploração psicológica densa. O resultado é um filme que confia na inteligência emocional do espectador e propõe uma experiência honesta sobre as dores que carregamos. Nem sempre elas encontram cura, mas podem ser integradas à vida sem que o peso se torne destrutivo.