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Cinema e séries em contínua conexão. Entre planos, obras, épocas e olhares. Curadoria, notícias e tutoriais.

  • Uma semana após o lançamento de Dinheiro Suspeito pela Netflix, detalhes sobre o processo criativo do thriller ajudam a compreender como as plataformas de streaming vêm influenciando a linguagem do cinema comercial. O filme é produzido pela empresa de Ben Affleck e Matt Damon, que comentaram o tema em entrevista ao podcast de Joe Rogan, um dos mais ouvidos do mundo.

    Segundo Damon, a Netflix fez duas orientações centrais durante o desenvolvimento do projeto. A primeira diz respeito à estrutura narrativa. Diferentemente dos thrillers tradicionais, que concentram as cenas de maior impacto no desfecho, a plataforma solicitou a inclusão de uma sequência de forte apelo logo nos primeiros cinco minutos. O objetivo é claro: reter a atenção do espectador desde o início, reduzindo as chances de abandono nos primeiros minutos, um dado crítico para métricas internas de engajamento.

    A segunda orientação envolve a simplificação do roteiro. Damon relata que a Netflix incentiva a repetição de informações-chave ao longo dos diálogos, inclusive retomando o enredo três ou quatro vezes. A justificativa é pragmática: muitos espectadores assistem aos filmes enquanto usam o celular, o que fragmenta a atenção. Reiterar situações e explicações funcionaria como um mecanismo de compensação para esse consumo disperso.

    Esses relatos revelam como decisões criativas passam a ser moldadas por padrões de comportamento do público e por dados de retenção, alterando não apenas o ritmo dos filmes, mas também a forma como as histórias são contadas no streaming.

  • Há 25 anos estreava nos Estados Unidos “Donnie Darko”, obra que marcou a estreia de Richard Kelly como diretor e roteirista. Produzido por Drew Barrymore, o filme traz Jake Gyllenhaal no papel principal, acompanhado por um elenco que inclui Jena Malone, Maggie Gyllenhaal e Patrick Swayze.

    A narrativa acompanha um adolescente atormentado por visões perturbadoras em uma trama complexa que entrelaça ficção científica, filosofia existencial e crítica social. Revelar detalhes da história compromete a experiência cinematográfica, já que o roteiro se estrutura através de revelações progressivas e múltiplas camadas interpretativas.

    A trilha sonora constitui elemento narrativo essencial. A releitura de “Mad World” por Gary Jules desconstruiu a versão synthpop do Tears For Fears, resultando em arranjo minimalista de piano e voz que se tornou emblemático da atmosfera melancólica do filme.

    Inicialmente fracasso de bilheteria, arrecadando apenas US$ 7,5 milhões, “Donnie Darko” conquistou reconhecimento posterior. Seu status de filme cult se consolidou através de lançamentos em DVD e sessões especiais.

    Em 2009, foi lançado “S. Darko”, sequência que acompanha a irmã do protagonista. O filme foi mal recebido pela crítica e ignorado pelo público.

  • Publiquei esse texto há mais de 15 anos. A maioria das dúvidas persiste.

    O debate sobre a limitação da meia entrada ressurge com frequência no Brasil. No ano passado, o Senado aprovou restrições ao benefício em espetáculos culturais. Mais recentemente, a Justiça derrubou um limite semelhante imposto pelo município de São Paulo.

    O ponto central do problema, porém, não é o direito à meia entrada, mas a fragilidade dos mecanismos de fiscalização, sobretudo no processo de emissão de carteirinhas. Há instituições, como cursos, que chegam a oferecer o documento como “vantagem” para novos alunos.

    A existência de abusos tem sido usada como justificativa para restringir um direito socialmente reconhecido. É uma lógica questionável. Seria o mesmo que propor o fim da meia tarifa no transporte público porque há casos de falsificação, ignorando que soluções tecnológicas, como o bilhete único, foram implementadas mesmo diante de críticas iniciais sobre custos e viabilidade.

    Outro argumento recorrente é o impacto econômico sobre produtores e exibidores. Entretanto, a evidência sugere que o problema não é tão linear. A taxa média de ocupação das salas de cinema no Brasil é tímida. Mesmo com plateias reduzidas, os filmes precisam ser exibidos. Diante de tamanha ociosidade, faria mais sentido repensar a formação de preços, e não eliminar o benefício. As próprias promoções amplamente praticadas pelo mercado indicam que existe margem para desconto sem inviabilizar a operação.

    Há ainda um aspecto frequentemente omitido no debate. Boa parte dos espetáculos culturais, inclusive grandes eventos, é financiada por leis de incentivo, que transferem parte do imposto devido por empresas para o patrocínio de projetos culturais. Em outras palavras, recursos públicos ajudam a viabilizar essas produções.

    Originalmente, esses mecanismos foram concebidos para favorecer iniciativas com menor capacidade de captação. Na prática, os recursos concentram-se majoritariamente no eixo Rio–São Paulo e beneficiam nomes já consolidados, enquanto regiões como o Nordeste seguem subfinanciadas.

    Diante desse contexto, causa estranhamento a falta de evidências concretas no discurso de parte do setor. Após defenderem por anos a limitação da meia entrada, muitos produtores não apresentaram estudos que demonstrassem, de forma objetiva, quanto os preços finais seriam reduzidos. A imprensa registrou essa incerteza, ao noticiar que a queda de preços era improvável ou indeterminada.

    Tratar a meia-entrada como vilã é desconsiderar um dado elementar: salas vazias não geram receita. Em um cenário de ociosidade crônica, o problema não é o ingresso vendido pela metade, mas o assento que permanece sem ninguém. A escolha colocada ao setor é simples: preservar preços elevados para um público cada vez mais restrito ou rever a lógica de acesso. A retórica da fraude desvia o olhar do ponto central. O entrave real está em um modelo de preços dissociado da renda média, que empurrou o consumo cultural para fora do cotidiano.

  • O documentário Nove Auras – O Legado Bielinsky chegou à HBO Max propondo um mergulho no método de Fabián Bielinsky, cineasta que morreu em 2006 e deixou marca decisiva no thriller argentino. A produção examina como seus filmes combinaram roteiros de elevada precisão com uma estética que alternava o ruído do espaço urbano e o silêncio psicológico dos personagens.

    Dirigido por Mariano Frigerio, o documentário reúne Ricardo Darín e Gastón Pauls para revisitar os elementos centrais de sua obra. O rigor técnico, a ambiguidade moral e a construção minuciosa da tensão reaparecem como eixos que atravessam Nove Rainhas e A Aura, filmes que consolidaram a reputação de Bielinsky.

  • Em framed.wtf, o cinema é apresentado como enigma visual. A cada dia, um novo filme é selecionado e mostrado inicialmente por um único frame. A partir dele, o jogador tenta identificar o título.

    Se errar ou optar por não responder, um novo quadro do filme é revelado. O objetivo é chegar ao nome correto em até seis tentativas.

  • O encerramento oficial de Lost ocorreu em maio de 2010, após seis temporadas, e deixou parte do público dividida. Três meses depois, o lançamento em DVD da temporada final incluiu um episódio extra, The New Man in Charge, que funcionou como epílogo e esclareceu pontos que haviam permanecido em aberto no desfecho original. O material ofereceu respostas adicionais e ajudou a fechar arcos narrativos de maneira mais coesa. [Spoilers👇]

    O episódio confirma que os ursos polares faziam parte dos experimentos conduzidos pela Iniciativa Dharma, voltados à pesquisa científica e ambiental na Ilha. O Quarto 23 tem sua função explicitada como espaço de lavagem cerebral e contenção psicológica.

    Já Walt Lloyd reaparece como peça-chave ao ser recrutado por Hurley e Ben para retornar à Ilha, justificando sua condição especial após anos afastado da trama principal. Por fim, os lançamentos de suprimentos da Dharma são explicados como parte da logística de manutenção das operações e experimentos do grupo.

    Ao complementar o episódio final exibido na TV, The New Man in Charge não reescreve o desfecho de Lost, mas oferece um fechamento mais pragmático para questões que geraram debate entre os fãs.

  • Reportagem do NY Times mostra que dramas e comédias perderam força nas bilheterias dos EUA e Canadá. Nenhum dos principais lançamentos recentes desses gêneros conseguiu um desempenho significativo, mesmo com elencos estrelados. Outubro somou 445 milhões de dólares, o pior resultado não ligado à pandemia, e reforçou que o público não tem priorizado esses filmes nos cinemas.Produções que antes poderiam ultrapassar com facilidade a marca simbólica dos 50 milhões agora falham. After the Hunt, que custou 70 milhões, arrecadou apenas 3,3 milhões; Kiss of the Spider Woman teve desempenho ainda mais baixo. A percepção na indústria é que dramas e comédias só competem quando parecem um “evento”.

    Por outro lado, franquias, terror e animação continuam estáveis. Predator: Badlands abriu com 40 milhões e superou projeções.

    A retração se acentuou após a redução da janela exclusiva das salas, que antes era de 90 dias. Com acesso rápido ao digital, muitos espectadores preferem ver dramas e comédias em casa. Tentativas dos donos de cinemas de ampliar esse prazo não avançaram.

    Nem os filmes elogiados escapam da tendência. Die My Love não passou dos 3 milhões na estreia, e Springsteen: Deliver Me From Nowhere ficou longe de cobrir seus custos. Mesmo assim, os estúdios seguem lançando filmes no cinema, já que o Oscar ainda exige presença na grande tela. 

  • Há 30 anos, 12 Monkeys chegava aos cinemas. A ficção científica estreou nos Estados Unidos em 29 de dezembro de 1995 e se consolidou como um dos títulos mais densos do gênero ao articular viagem no tempo, pandemia viral e paradoxos temporais com ambição narrativa incomum. Dirigido por Terry Gilliam e escrito por David Peoples e Janet Peoples, o filme é inspirado livremente no curta experimental La Jetée (1962), de Chris Marker, construído quase inteiramente a partir de fotografias estáticas.

    A história se passa em 2035, quando James Cole, interpretado por Bruce Willis, supostamente é enviado ao passado para investigar a origem de um vírus que devastou a população mundial. Tratado como instável mental, Cole tenta convencer a psiquiatra Kathryn Railly (Madeleine Stowe) de que suas memórias do futuro são reais. Nesse percurso, cruza com Jeffrey Goines (Brad Pitt), um paciente de hospital psiquiátrico cujos discursos caóticos confundem delírio, crítica social e pistas centrais da narrativa. Christopher Plummer e David Morse completam o elenco.

    O filme marcou um momento específico na carreira de Gilliam, cineasta cuja trajetória começou no cartum e na animação antes de ganhar projeção como integrante do Monty Python. Após codirigir Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, Gilliam consolidou uma filmografia autoral com títulos como Brazil e As Aventuras do Barão de Munchausen. Sua abordagem visual e narrativa encontra em 12 Monkeys uma síntese madura entre delírio estético e estrutura clássica.

    Visualmente, o filme é marcado pela fotografia de Roger Pratt, colaborador recorrente de Gilliam, e pela trilha sonora de Paul Buckmaster, que reforça a sensação constante de desorientação temporal. O figurino de Julie Weiss contribui para a atmosfera de um futuro degradado, mais próximo da ruína industrial do que da ficção científica higienizada.

    O reconhecimento artístico foi amplo. 12 Monkeys recebeu indicações ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, para Brad Pitt, e Melhor Figurino. Pitt venceu o Globo de Ouro na mesma categoria e o filme foi consagrado no Saturn Awards como Melhor Ficção Científica, além de render prêmios adicionais ao ator e ao figurino. Com arrecadação mundial de US$ 168,8 milhões, superou amplamente seu orçamento inicial e manteve alta aprovação crítica ao longo dos anos.

    Anos após seu lançamento, a obra ainda reverbera. Em 2015, deu origem a uma série televisiva homônima, evidenciando a longevidade de seu universo narrativo.

  • “ “O medo foi sempre muito real para mim. Então, o que fiz foi me livrar de meus medos, transferindo-os para os outros – o público.” ”
Steven Spielberg, em sua biografia, explica o papel do medo em sua obra.
Há 45 anos, chegava aos cinemas um dos...

    “O medo foi sempre muito real para mim. Então, o que fiz foi me livrar de meus medos, transferindo-os para os outros, o público.”

    Steven Spielberg, em sua biografia, explica o papel do medo em sua obra.

    Há 50 anos, chegava aos cinemas brasileiros um dos clássicos do diretor, “Tubarão” (1975). No enredo, a tranquilidade de uma cidade litorânea é interrompida por uma série de ataques atribuídos a um tubarão-branco. Diante da pressão política para manter a cidade aberta durante o verão, o chefe de polícia (Roy Scheider) une forças com um oceanógrafo (Richard Dreyfuss) e um caçador de tubarões (Robert Shaw) para eliminar a ameaça.

    O trio central sustenta o filme tanto pelo conflito externo quanto pelas tensões internas entre razão científica, autoridade institucional e obsessão pessoal. Tubarão foi indicado a quatro Oscars e venceu três, incluindo Melhor Montagem, Melhor Trilha Sonora Original para John Williams e Melhor Som.

    O caminho para o sucesso, porém, foi cheio de obstáculos. Problemas com o animal mecânico mudaram o destino da produção. Com dificuldade em exibir o animal na tela, Spielberg optou pelo terror psicológico. Em “Tubarão”, o medo surge não pela presença constante do predador, que pouco aparece no filme. É a possibilidade do seu surgimento, inesperada e fatal, que apavora o público. A bela trilha de John Williams amplifica o temor. Todos esses elementos semeiam o medo. Através da imaginação, nós fazemos a tensão crescer.

    O título também é considerado o primeiro blockbuster do cinema. Seu lançamento foi precedido por uma campanha de divulgação sem precedentes. O trailer, que parecia uma reportagem, foi apresentado um ano antes do filme estrear. “Tubarão” também ganhou propaganda na TV, algo inédito. Resultado: todos queriam ver “Tubarão”. Deixar de ir ao cinema seria o mesmo que não ser convidado para uma festa popular. A venda de produtos temáticos, como camisas e bonés, também ganhou tração com o sucesso de “Tubarão”.

    O filme apontou novos rumos para o cinema enquanto negócio. Se antes os estúdios reservavam as grandes estreias para o fim de ano, “Tubarão” antecipou o auge da experiência cinematográfica para julho, quando verão e férias escolares se encontram nos EUA. Desde então, os jovens são o principal público almejado por Hollywood.

  • “[Minha mãe] nunca tinha visto uma vida parecida com a sua na tela. Quando viu que era possível se afirmar na arte do cinema, ela chorou e sorriu.”

    Essa frase da escritora Alice Walker resume a alma de “A Cor Púrpura”. Lançado em 1982 e vencedor do Pulitzer, o livro acompanha a jornada de Celie. Enfrentando um contexto de severa opressão e desafios familiares profundos, ela encontra refúgio ao escrever cartas para Deus e para a irmã distante.

    Essa potência chegou aos cinemas pela primeira vez há 40 anos pelas mãos de Steven Spielberg. O filme marcou a estreia de Whoopi Goldberg (Celie) e Oprah Winfrey (Sofia), além de trazer Danny Glover como o terrível “Mister”. A produção entrou para a história por dois motivos: sua carga emocional devastadora e uma das maiores injustiças do Oscar. Mesmo com 11 indicações, o filme saiu de mãos vazias, embora Spielberg tenha sido reconhecido pelo sindicato dos diretores.

    Em 2023, a história ganhou nova versão cinematográfica, desta vez baseada no musical da Broadway. A produção contou com Spielberg, Quincy Jones e Oprah. O elenco brilha com Fantasia Barrino (Celie) e Danielle Brooks (Sofia), que já viviam os papéis no teatro, ao lado de Taraji P. Henson e da cantora H.E.R.