Raccord

Cinema e séries em contínua conexão. Entre planos, obras, épocas e olhares. Curadoria, notícias e tutoriais.

  • Em 27 de janeiro de 1995, há 30 anos, ‘Antes do Amanhecer’ (Before Sunrise), dirigido por Richard Linklater, chegou aos cinemas. Os encontros e desencontros de Celine e Jesse ganharam sequência em outros dois filmes: ‘Antes do Pôr-do-Sol’ (2004) e ‘Antes da Meia-Noite’ (2013).

    Após assistir a esse filme, um “big bang” ocorreu dentro de mim. Eu tinha 15 anos. A ideia central que o filme transmite, uma relação baseada no diálogo, passou a guiar minha visão sobre vínculos afetivos. Quando as ideias se encontram e a conversa flui, a conexão se aprofunda de maneira singular.


    O filme é inspirado em uma experiência real do diretor. Em 1989, Richard Linklater conheceu Amy Lehrhaupt, que visitava uma irmã nos Estados Unidos. Ele tinha 29 anos; ela, 20. Eles se encontraram casualmente em uma loja de brinquedos e passaram a conversar e caminhar juntos durante a noite, até o amanhecer. Essa noite deu origem a Antes do Amanhecer.

    Apesar da aproximação, o romance entre Richard e Amy não se desenvolveu, mesmo após algumas ligações. Foi uma conexão breve, mas profunda, que uniu dois continentes em uma só noite.


    Anos depois, Richard sonhou que Amy aparecia de surpresa na pré-estreia do filme que conta essa história. De maneira semelhante, em ‘Antes do Pôr-do-Sol’, Celine surge inesperadamente no lançamento do livro de Jesse, na França.

    O romance entre Amy e Richard permaneceu como uma memória viva. Em 2010, Richard soube que Amy havia morrido em um acidente de moto em 1994, pouco antes do início das filmagens de Antes do Amanhecer. No final do terceiro filme, o nome de Amy é lembrado como uma homenagem silenciosa.

  • “É um erro impor um estilo a um filme. Nenhum diretor deveria desenvolver um estilo próprio, já que isso deveria ser ditado por cada história, de acordo com a temática. […] O estilo de um cineasta acaba entediando o público.”

    A provocação é de Paul Haggis, roteirista e diretor canadense que fez história ao escrever os roteiros de dois vencedores consecutivos do Oscar de Melhor Filme: “Menina de Ouro” (2004) e “Crash: No Limite” (2005), este último também dirigido por ele. Sua filmografia inclui ainda “Cassino Royale” (2006), “Quantum of Solace” (2008), “No Vale das Sombras” (2007) e “72 Horas” (2010).

  • Saudades daquilo que não vivi: o mar de gente da primeira edição do festival Woodstook (EUA, 1969).  Tudo não saiu como planejado, o que foi ótimo. Faltando poucos dias para o início, a equipe informou que não haveria tempo para construir tudo, e pediu para a organização escolher se eles queriam concluir o palco ou as cercas em torno do local. Sem grades, 400 mil pessoas entraram de graça.

    O festival foi realizado em uma fazenda. O caminho até lá não comportava um fluxo tão intenso. Ao invés de reclamar do congestionamento, as pessoas desciam dos carros e começavam a puxar conversa. 

    Não havia seguranças na equipe de segurança. Uma comunidade hippie foi contratada para garantir a paz. Além de não ter ocorrido violência, essa comunidade também produzia refeições e distribuía de graça.

    Faltou comida. Por isso, os moradores da região, considerados conservadores, coletaram tudo que tinham em suas casas, e distribuíram para os participantes do festival. De graça.

    Medicamentos também se tornaram escassos. Helicópteros militares chegaram ao local trazendo equipes para prestar auxílio médico. 

    Woodstook, um festival sobre música, paz e compartilhar sonhos.

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    Essa atmosfera foi eternizada pela produção audiovisual. O documentário “Woodstock” (1970), dirigido por Michael Wadleigh, registrou as apresentações e o comportamento do público. Já em 2009, o filme “Aconteceu em Woodstock”, de Ang Lee, dramatizou os bastidores da organização, ampliando a compreensão sobre como o caos logístico se transformou em um símbolo de sonhos compartilhados.

  • Após cinco temporadas, chegou ao fim Star Trek: Discovery. Criada por Bryan Fuller e Alex Kurtzman, a série estreou em 2017 na Paramount+. A produção integrou a estratégia de revitalização televisiva do universo Star Trek após mais de uma década focada no cinema.

    Embora Fuller seja creditado como cocriador, sua participação efetiva concentrou-se nas etapas iniciais de desenvolvimento. Ainda assim, sua influência é perceptível no interesse da série por personagens emocionalmente complexos. Fuller construiu carreira sólida na televisão norte-americana, com criações como Pushing Daisies (2007–2009) e Hannibal (2013–2015). Nos anos 1990, atuou como roteirista em Star Trek: Deep Space Nine e Star Trek: Voyager.

    Alex Kurtzman, por sua vez, traz um percurso distinto. Consolidou-se como roteirista e produtor de grandes franquias cinematográficas, com créditos em Transformers (2007), Star Trek (2009), Star Trek Into Darkness (2013) e O Espetacular Homem-Aranha 2 (2014). Na televisão, co-criou Fringe (2008) ao lado de J.J. Abrams. Em 2018, Kurtzman firmou contrato de longo prazo com a CBS Television Studios para supervisionar e expandir o universo Star Trek na TV, assumindo papel central em séries como Discovery, Picard e Strange New Worlds.

    Ambientada inicialmente cerca de uma década antes da série original, Discovery acompanhou a tripulação da nave USS Discovery e teve como protagonista Sonequa Martin-Green, no papel de Michael Burnham, especialista em ciências e irmã adotiva de Spock. O elenco incluiu ainda Doug Jones, Shazad Latif, Anthony Rapp, Mary Wiseman e Jason Isaacs.

    Narrativamente, a série destacou-se pela construção de arcos longos e pela disposição em subverter expectativas logo nas primeiras temporadas. As múltiplas linhas narrativas abriam-se de forma fragmentada, mas tendiam a convergir com coerência. Como prova a primeira temporada, uma das melhores criações sobre multiverso. Ao mesmo tempo, Discovery reafirmou valores clássicos da franquia ao enfatizar diversidade, empatia e colaboração em cenários de dilemas morais complexos.

  • Flora e Filho: Música em Família (Flora and Son, 2023) é o novo longa de John Carney, disponível na Apple TV+. O diretor irlandês retorna ao terreno do drama musical intimista, agora ancorado em relações familiares e mediações tecnológicas. A produção aposta em proximidade emocional, canções e encenação econômica, marcas recorrentes da filmografia de Carney.

    A história acompanha Flora, mãe solo que vive em Dublin com o filho adolescente Max, jovem em conflito com a escola e com a própria família. Ao encontrar um violão descartado, Flora tenta criar uma ponte com o filho por meio da música. A iniciativa leva ambos a aulas online com Jeff, músico em Los Angeles que passa a orientar Max à distância. No elenco, Eve Hewson interpreta Flora, Orén Kinlan vive Max e Joseph Gordon-Levitt assume o papel do professor.

    A direção de Carney mantém abordagem discreta e funcional. A câmera reforça a intimidade entre os personagens e a sensação de cotidiano. A fotografia adota iluminação naturalista e paleta contida, explorando os espaços reduzidos do apartamento de Flora sem recorrer ao excesso de sombra ou à estilização gratuita. A cidade de Dublin aparece menos como cartão-postal e mais como ambiente vivido, coerente com o tom do filme.

    A montagem trabalha com ritmo narrativo regular, alternando conflitos domésticos e momentos musicais integrados à ação. As canções originais surgem sem números performáticos destacados, mantendo a lógica da música como extensão dramática dos personagens. Carney evita transformar as composições em espetáculo separado da narrativa.

    No roteiro, o diretor aposta novamente em personagens falhos e muitas vezes ásperos. Flora não é idealizada como mãe afetuosa, e Max evita o arquétipo do adolescente sensível redimido pela arte. O texto demonstra autoconsciência ao discutir o próprio fazer musical, como quando Flora critica uma composição de Max afirmando que “músicas memoráveis precisam de refrão marcante”, expondo as convenções que filmes musicais geralmente utilizam.

    As atuações sustentam bem o projeto. Hewson constrói uma personagem impulsiva e contraditória, evitando sentimentalismo excessivo. Kinlan transmite insegurança e resistência com naturalidade. Já a presença de Gordon-Levitt funciona mais como apoio narrativo do que como eixo dramático, mantendo-se em segundo plano.

    O principal impasse de Flora and Son surge na reta final. Após desenvolver conflitos de forma honesta e evitar soluções fáceis durante boa parte da narrativa, o filme opta por um desfecho conciliador. A resolução suaviza tensões que haviam sido construídas com cuidado, reduzindo a complexidade emocional apresentada anteriormente.

    No contexto da filmografia do diretor, o filme confirma a consistência de um método, mas também evidencia seus limites. A música segue como ferramenta de aproximação humana, repetindo o recurso de Once (2007) e Sing Street (2016) sem expandir suas possibilidades. Flora e Filho é competente, bem interpretado e tecnicamente sólido, mas não amplia o repertório de Carney nem tensiona sua fórmula estabelecida.

  • O retorno da franquia Sex and the City por meio da série And Just Like That (HBO) coincide com a celebração dos 25 anos da produção original, lançada em 1998, e marca um momento de reposicionamento do projeto.

    Essa atualização contrasta com as condições iniciais de produção. Nas primeiras temporadas, o figurino recorria a brechós e lojas de departamento, operando com recursos limitados antes de a série passar a ser associada a um imaginário de luxo.

    No plano narrativo, a nova produção desloca o foco para personagens acima dos 50 anos, enfrentando a invisibilidade cultural historicamente atribuída a mulheres nessa faixa etária. Ao mesmo tempo, o roteiro responde a críticas recorrentes à obra original ao ampliar a diversidade do elenco.

  • https://www.youtube.com/embed/2togFepved8?si=uQulmguOhnt-NBQo

    Há 25 anos, “Seinfeld” chegou ao fim. No vídeo, criadores e elenco debatem essa que é uma das melhores sitcons de todos os tempos.

    O programa se tornou a maior audiência da TV norte-americana nos anos 1990. Perguntado sobre como conseguia criar programas sobre temas tabus para uma ampla audiência, Jerry Seinfeld é certeiro:

    “Somos muito bons com a linguagem. Acho engraçado ser delicado com algo que é explosivo”

    O seriado sobre ‘nada’ tinha muito a dizer.

  • “Vulcões” foi o melhor documentário lançado no ano passado. Disponível no Disney+, o filme acompanha a trajetória de Katia e Maurice Krafft, casal de vulcanólogos que transforma a própria parceria afetiva em um projeto de vida e de pesquisa.

    A obra reforça o interesse da diretora Sara Dosa pelas relações complexas entre humanidade e natureza, tema já explorado em “The Last Season”. Aqui, esse olhar se manifesta no modo como o filme articula ciência, paixão e risco como dimensões inseparáveis da experiência do casal.

    Diante das limitações tecnológicas do período, os Krafft precisavam se aproximar fisicamente das erupções para registrar dados e imagens, o que resultou em um acervo visual sem precedentes. Esse material, além de impressionante do ponto de vista estético, tornou-se referência para protocolos contemporâneos de prevenção e resposta a desastres naturais.

    A narrativa evidencia uma relação marcada por cumplicidade e por uma vivência contínua em estado de flow, na qual trabalho e vida se confundem em uma entrega absoluta ao presente e ao fenômeno científico que os move.

    O filme reúne inúmeros méritos estéticos e narrativos. O título nacional, porém, não está entre eles. Enquanto o original (“Fire of Love”) preserva a ambiguidade poética entre paixão e destruição, a versão brasileira acrescenta um subtítulo que enfatiza o desfecho trágico do casal, reduzindo parte da sutileza que sustenta a experiência proposta pelo documentário.

  • Richard Linklater lançou Waking Life em 2001, filme que explora consciência, existencialismo e a natureza dos sonhos através de uma colagem de segmentos narrativos. A obra se destaca pelo uso da técnica de rotoscopia, processo que transforma filmagens ao vivo em animação desenhada quadro a quadro. O resultado é uma experiência visual fluida que reforça a atmosfera onírica da narrativa.

    O filme acompanha um personagem sem nome que transita por diferentes encontros e conversas filosóficas, sem saber se está acordado ou sonhando. A estrutura fragmentada apresenta diálogos sobre livre-arbítrio, tempo, linguagem e morte. Entre os segmentos, destaca-se a participação de Celine e Jesse (Julie Delpy e Ethan Hawke), casal protagonista de Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995). A cena funciona como ponte entre os dois filmes, antecipando o reencontro que aconteceria em Antes do Pôr do Sol (Before Sunset, 2004).

    Linklater filmou as cenas com atores reais e depois coordenou uma equipe de animadores que redesenharam cada quadro digitalmente. O processo levou meses e resultou em estética instável, com linhas tremidas e cores que se movem independentemente dos objetos. Essa escolha visual não é apenas estilização, mas reforça o tema central do filme sobre a impermanência da percepção.

    Waking Life consolida o interesse de Linklater em narrativas que privilegiam diálogo e reflexão sobre ação. A rotoscopia amplifica a sensação de estranhamento e sustenta a premissa de que o protagonista pode estar preso em um sonho lúcido.

  • Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica é uma animação dirigida por Dan Scanlon. O filme combina fantasia urbana e drama familiar, usando um universo mágico como cenário para uma história íntima sobre perda, amadurecimento e vínculos fraternos.

    A narrativa acompanha Ian e Barley Lightfoot, dois irmãos elfos que cresceram sem o pai. Ao descobrirem um feitiço capaz de trazê-lo de volta por um único dia, eles embarcam em uma jornada para completar o ritual. A produção tem forte caráter autobiográfico. Dan Scanlon já declarou que o filme nasce de sua própria experiência de ter perdido o pai cedo demais e de ter construído referências masculinas a partir do convívio com o irmão mais velho.

    A direção opta por escolhas visuais que reforçam a ideia de um mundo que abandonou a magia em favor da praticidade. Os personagens habitam um ambiente híbrido, onde criaturas míticas vivem rotinas suburbanas, criando contraste entre fantasia e banalidade cotidiana. Essa oposição dialoga diretamente com o arco dos personagens, que precisam reaprender a acreditar em algo além do imediato.

    A obra trata a paternidade como função relacional, não como título biológico. O desfecho reorganiza o sentido da jornada e reposiciona o olhar do espectador sobre quem, de fato, exerceu o papel de guia. É uma das maiores homenagens àqueles que nos ajudam a encontrar nosso lugar no mundo.

    Feliz dia dos pais para todos!