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Cinema e séries em contínua conexão. Entre planos, obras, épocas e olhares. Curadoria, notícias e tutoriais.


  • Dirigido por Robert Zemeckis, “Aqui” está disponível no Prime Video. O filme se passa em um único ambiente que testemunha diversas histórias ao longo das décadas.

    A obra é uma adaptação da graphic novel de Richard McGuire, reconhecida por sua narrativa visual experimental. A obra sobrepõe diferentes períodos históricos no mesmo quadro, permitindo ao leitor observar simultaneamente eventos de épocas distintas no mesmo espaço físico. Para traduzir essa linguagem ao cinema, Zemeckis optou por uma câmera fixa, posicionada em um único ângulo durante toda a projeção.

    A produção marca o reencontro da equipe central do clássico Forrest Gump (1994). Além da direção de Zemeckis, o filme tem roteiro de Eric Roth e conta com Tom Hanks e Robin Wright no protagonismo.

    Um elemento técnico fundamental para o projeto foi o uso da ferramenta Metaphysic Live, que permitiu rejuvenescer e envelhecer o elenco em tempo real. Diferente das maquiagens prostéticas tradicionais, essa tecnologia possibilitou que Hanks e Wright interpretassem seus personagens da adolescência à velhice com maior fluidez.

  • No festival de Dreux, onde o Brasil foi homenageado, Walter Salles destacou que “um filme só fica pronto quando é confrontado com o olhar dos outros”. O cineasta também valorizou a participação dos brasileiros que compartilharam suas histórias familiares e ajudaram a completar seu filme mais recente, “Ainda Estou Aqui”.

    Baseado nas memórias de Marcelo Rubens Paiva, o drama “Ainda Estou Aqui” (2024), protagonizado por Fernanda Montenegro e Selton Mello, explora a resiliência íntima de Eunice Paiva, oferecendo um retrato sensível de perda e reconstrução familiar.

    O filme alcançou reconhecimento histórico na 97ª cerimônia do Oscar (2025), vencendo como Melhor Filme Internacional, a primeira produção brasileira a conquistar essa categoria. Além disso, recebeu indicações inéditas a Melhor Filme e Melhor Atriz para Fernanda Torres, cuja performance foi amplamente celebrada, incluindo a conquista do Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama.

    “Ainda Estou Aqui” também recebeu o Prêmio Goya de Melhor Filme Ibero-Americano e indicações ao BAFTA e Critics Choice Awards.


  • Após o divisor de águas “Santiago”, a carreira de João Moreira Salles trilhou um novo caminho, marcado pela busca por expandir as fronteiras do documentário, mesclando a observação do cinema direto com a reflexão pessoal. Essa fase, menos prolífica em quantidade, ganha um novo capítulo com o lançamento de “Minha terra estrangeira” na 30ª edição do É Tudo Verdade, festival com o qual o cineasta mantém uma longa e frutífera relação.

    Em entrevista, Salles explora essa evolução, desde a época em que festivais como o ETV eram a principal janela para o documentário brasileiro, até o cenário atual de abundância de plataformas. Para ele, o valor de um festival reside hoje na curadoria, na capacidade de selecionar, em meio a uma vasta produção, obras que se destacam e refletem um olhar particular, contribuindo para o debate sobre o gênero.

    O diretor também comenta a democratização da produção audiovisual impulsionada pela tecnologia, desde as câmeras digitais até os smartphones, que possibilitam narrativas antes inviáveis, como os filmes de Sandra Kogut. Em sintonia com esse pensamento, ele recorda a preocupação de Eduardo Coutinho com a velocidade das imagens na televisão e especula sobre como o cineasta abordaria a estética das redes sociais, acreditando que ele as colocaria no centro da discussão.

    Sobre a inteligência artificial no cinema, Salles a encara como mais uma ferramenta que trará novas formas de contar histórias. Em relação a “Minha terra estrangeira”, codirigido com Louise Botkay e o Coletivo Lakapoy, ele o situa mais próximo de seu filme “Entreatos”, revelando que a colaboração trouxe diferentes perspectivas para a narrativa, acompanhando o líder indígena Almir Suruí (filmado pelo Lakapoy) e sua filha, a ativista Txai Suruí (filmada por Salles) durante as eleições de 2022.

    O título do documentário remete à condição dos povos originários no Brasil, tratados como estrangeiros em sua própria terra, sendo a referência ao filme de seu irmão Walter Salles (“Terra Estrangeira”) é uma feliz coincidência.

    “Minha terra estrangeira” será exibido gratuitamente no Rio de Janeiro e em São Paulo durante o festival É Tudo Verdade, com sessões seguidas de debate no Rio. A data de lançamento comercial ainda não foi divulgada. 

  • O filme Flow, dirigido por Gints Zilbalodis, marcou um momento histórico ao ganhar o Oscar de Melhor Animação usando exclusivamente com um software de código aberto. Essa vitória representa uma quebra de paradigmas na indústria cinematográfica, que até então dependia fortemente de ferramentas proprietárias.

    Em entrevista, o diretor explicou como produziu a animação. O longa foi todo criado com o programa Blender, que permite manipular luz e câmera em tempo real, eliminando etapas tradicionais de pré-visualização.

    Desenvolvido durante cinco anos e meio, o projeto começou como um trabalho solo e evoluiu para uma colaboração entre profissionais da Letônia, França e Bélgica. Diferente das grandes produções que usam fazendas de renderização (rede de computadores interligados que processam imagens complexas simultaneamente) caras e complexas, o filme foi renderizado em 4K usando computadores comuns.

    Para Zilbalodis, o sucesso do filme não veio de tentar imitar os grandes estúdios, mas de transformar limitações técnicas e orçamentárias em escolhas estéticas que deram à obra sua identidade.

  • “O Menino e o Mundo”, do diretor Alê Abreu, agora disponível no Prime Video, é um filme de animação brasileiro indicado ao Oscar. A obra mostra um menino que explora a vida no meio urbano.

    “O Menino e o Mundo”, do diretor Alê Abreu e agora disponível no Prime Video, é uma animação brasileira indicada ao Oscar que se destaca pelo uso de uma linguagem visual minimalista.

    O filme acompanha a jornada de um garoto que deixa o campo e passa a explorar o ambiente urbano, confrontando-se com o ritmo industrial e os contrastes entre o imaginário infantil e a realidade adulta.

    Com traços simples e forte dimensão simbólica, a narrativa dispensa o diálogo convencional e se apoia na música e na composição visual para refletir sobre modernização, deslocamento e perda de vínculos afetivos no mundo contemporâneo.

  • O diretor taiwanês John Hsu, reconhecido por trabalhos que misturam elementos sobrenaturais com narrativa envolvente, como em Detention (2019), apresenta sua nova produção, a comédia Sociedade dos Talentos Mortos, agora disponível na Netflix.

    O filme explora com humor ácido a convivência e a competição entre fantasmas que buscam licenças para assombrar. Essa proposta mescla sátira social com aspectos culturais locais, reforçando a identidade particular do cinema taiwanês contemporâneo.

  • “Ted Lasso” ganhará uma quarta temporada, marcando uma nova etapa para a série após o encerramento do arco anterior. Nesta fase, o personagem vivido por Jason Sudeikis assume a liderança de um time de futebol feminino.

    O núcleo de criação, que envolve os principais roteiristas e produtores responsáveis pelo tom conciliador e humanista da série, permanece à frente do projeto. Até o momento, porém, o estúdio não divulgou o elenco, detalhes sobre os novos personagens nem previsão de estreia.

  • 20 anos, estreava a versão norte-americana de “The Office” (2005–2013), adaptação da aclamada série britânica. Produzida no formato de mockumentary, a obra adotou câmera em estilo observacional, entrevistas diretas com os personagens e uso de silêncio cômico para construir situações do cotidiano corporativo.

    Ambientada em um escritório de venda de papel, a produção combinou humor ácido com um olhar cotidiano sobre a vida corporativa, criando figuras icônicas como Michael Scott (Steve Carell), Dwight Schrute (Rainn Wilson), Jim Halpert (John Krasinski) e Pam Beesly (Jenna Fischer).

    Diferentemente da versão original inglesa, o chefe (Michael Scott) é retratado de forma menos corrosiva, em alguns momentos até vulnerável, o que reforça o tom afetivo que permeia a produção norte-americana. Outro destaque é o arco romântico entre Jim e Pam, que acrescenta uma dimensão terna à narrativa.

    Steve Carell deixou a série ao final da sétima temporada, e a versão norte-americana de “The Office” continuou no ar até 2013, completando nove temporadas exibidas originalmente entre 2005 e maio daquele ano.

  • Em 26 de março de 1993, teve início a gravação da trilha sonora de “Backbeat”, conduzida pela Backbeat Band, um supergrupo de rock alternativo formado por Greg Dulli (The Afghan Whigs), Thurston Moore (Sonic Youth), Dave Pirner (Soul Asylum), Dave Grohl (Nirvana), Don Fleming (Gumball) e Mike Mills (R.E.M.).

    Dirigido por Iain Softley e lançado em 1994, o filme retrata o período pré-Beatlemania, com ênfase na fase vivida entre a Inglaterra e a cena noturna alemã. No vídeo, a Backbeat Band apresenta uma das faixas no MTV Movie Awards.


  • O filme “A Contadora de Filmes”, já disponível no Prime Video, apresenta uma narrativa centrada na experiência de uma jovem que transforma a prática de assistir cinema em um meio de sobrevivência econômica e afetiva. Após o acidente que incapacita o pai e compromete a renda familiar, ela passa a frequentar as sessões do cinema local para, em seguida, recontar as histórias dos filmes aos moradores da cidade.

    A mediação narrativa funciona tanto como fonte de sustento quanto como espaço de imaginação coletiva. Isso evidencia o papel do cinema como memória compartilhada e como mecanismo de elaboração simbólica diante da adversidade.

    O roteiro, coassinado por Walter Salles, reforça temas recorrentes na trajetória do cineasta, como deslocamento, resistência e formação subjetiva em contextos de vulnerabilidade social.