Raccord

Cinema e séries em contínua conexão. Entre planos, obras, épocas e olhares. Curadoria, notícias e tutoriais.

Grande parte da ficção científica contemporânea toma o fim do mundo como ponto de partida e transforma essa perspectiva em distopia. “Devoradores de Estrelas” (“Project Hail Mary”, 2026) parte de um cenário semelhante, mas desloca o olhar. O colapso permanece como ameaça constante, embora o filme pareça menos interessado na destruição em si do que na possibilidade de impedir que ela aconteça. O que sustenta essa tentativa não é um gesto heroico isolado nem uma solução tecnológica milagrosa, mas duas formas de vida aprendendo, aos poucos, a compartilhar linguagem e valores.

Ryland Grace, personagem de Ryan Gosling, desperta sozinho e sem memória numa nave espacial. Aos poucos, entre fragmentos desconexos e cálculos científicos, entende que foi enviado ao espaço para descobrir por que o Sol está morrendo. No meio da missão surge Rocky, um alienígena cujo planeta é ameaçado pelo mesmo fenômeno. O encontro entre os dois é o que faz o filme pulsar.

Os diretores Phil Lord e Christopher Miller chegaram ao projeto depois de filmes guiados por exuberância visual e velocidade constante, como “Uma Aventura Lego” (direção) e “Homem-Aranha no Aranhaverso” (roteiro). Aqui, o movimento é outro. O humor permanece, assim como a energia que atravessa a filmografia da dupla, mas a direção demonstra menos interesse em aceleração contínua do que na relação entre os personagens e o espaço que ocupam. Em vários momentos, o filme simplesmente permite que as cenas respirem antes de seguir adiante.

Isso aparece com clareza em Rocky. Em vez de existir apenas como uma composição digital, o personagem foi construído como marionete, e essa escolha muda a natureza da imagem. Rocky ocupa espaço, altera enquadramentos, interfere na luz da nave. A câmera reage à presença dele como reagiria a qualquer outro corpo em cena. O resultado é uma relação menos abstrata entre o personagem e Ryland Grace. Quando Gosling olha para Rocky, olha para algo que realmente está ali, e o filme entende o peso dessa materialidade.

Outro destaque é Sandra Hüller no papel de Eva Stratt, responsável por coordenar a missão que pode salvar a Terra. Depois de “Anatomia de uma Queda” e “Zona de Interesse”, Hüller continua trabalhando personagens que resistem à transparência emocional imediata. Stratt administra governos, cientistas e decisões extremas sem procurar simpatia ou aprovação do espectador. Ainda assim, o filme encontra pequenas fissuras naquela postura rígida. Não para suavizá-la, mas para lembrar que alguém sustenta o peso das escolhas que a sobrevivência exige.

O romance de Andy Weir que deu origem ao filme é ligado à relatividade e à dilatação temporal, e o roteiro não tenta suavizar essa base. As ideias científicas atravessam a narrativa sem pausas longas para explicação nem simplificações destinadas a tornar tudo imediatamente acessível. Existe uma naturalidade rara na forma como o filme incorpora esses elementos ao drama, permitindo que o espectador acompanhe o raciocínio sem que a história precise interromper o próprio fluxo.

Com mais de 675 milhões de dólares arrecadados ao redor do mundo, “Devoradores de Estrelas” se consolidou como a principal ficção científica recente. Porém, o maior êxito do filme é outro. Em um gênero que aprendeu a transformar o desconhecido em matéria-prima para o apocalipse, “Devoradores de Estrelas” escolhe fazer do encontro uma forma de resistência.

Posted in

Deixe um comentário