Raccord

Cinema e séries em contínua conexão. Entre planos, obras, épocas e olhares. Curadoria, notícias e tutoriais.

  • Os lançamentos em realidade virtual introduzem novas possibilidades para a narrativa audiovisual. Enquanto o cinema tradicional organiza a experiência a partir do enquadramento, do corte e da condução do olhar, a imagem em 360º dissolve a ideia de tela e desloca o espectador para o centro da cena. O desafio deixa de ser técnico e passa a ser linguístico, exigindo a articulação de narrativa, ritmo e sentido em um espaço contínuo e esférico.

    Na realidade virtual, a gramática clássica da montagem soa deslocada. O corte, elemento central do cinema, tende a ser substituído por estratégias de continuidade, som direcional, iluminação e movimento interno de cena, que orientam a atenção sem impor um ponto de vista único. A experiência se aproxima menos do cinema narrativo tradicional e mais de uma presença encenada, onde o espectador participa ativamente da construção do olhar.

    Essa ruptura também se manifesta na prática de produção. Como a câmera registra todas as direções simultaneamente, não existe fora de quadro. A equipe técnica precisa desaparecer do espaço filmado, o que exige soluções inventivas. Diretores e continuístas são também figurantes. Cada decisão técnica passa a ser também uma decisão narrativa.

  • O produtor argentino Diego Pignataro, da produtora Eyeworks, propõe uma reflexão sobre como diferentes estruturas de produção moldam a criação televisiva. Para ele, o contexto argentino historicamente exige adaptação constante, o que incentiva abordagens narrativas menos previsíveis e maior disposição para experimentar formatos e linguagens.

    Segundo Pignataro, operar em um ambiente de restrições leva à necessidade de repensar modelos estabelecidos e encontrar soluções criativas fora do padrão. Esse processo favorece a desconstrução de fórmulas e a renovação estética, não como escolha conceitual, mas como resposta prática às condições de produção.

    Ao tratar do cenário brasileiro, ele destaca a solidez industrial de empresas como a rede Globo, cuja escala e alcance internacional são amplamente reconhecidos. Nesse contexto, as decisões criativas tendem a privilegiar consistência, eficiência e previsibilidade, especialmente em projetos de grande visibilidade. Trata-se menos de limitação criativa e mais de uma lógica estrutural associada à produção em larga escala.

  • O modo como consumimos vídeo no celular mudou o eixo da imagem. A tela vertical, antes exceção, passou a ocupar espaço relevante na última década. Esse formato saltou de uso limitado para uma parcela significativa do consumo, e plataformas como o Snapchat, com bilhões de visualizações diárias, confirmam que a demanda é real.

    O problema é que a linguagem não acompanhou o hábito. Enquanto o público já se acostumou ao vídeo vertical, a produção ainda busca um padrão. Algumas iniciativas tratam o formato como escolha consciente desde a captação, reposicionando câmeras e pensando o enquadramento de forma nativa. Outras simplesmente adaptam vídeos horizontais, recortando a imagem na pós-produção.

    Essa divisão revela um momento de transição. O vídeo vertical deixou de ser improviso, mas ainda não se consolidou como linguagem estável. Entre soluções pensadas para a tela e ajustes feitos posteriormente, o formato segue em disputa, à espera de definições que organizem seu uso sem limitar suas possibilidades.

  • Há um ano, era lançada a série Stranger Things. Acompanhar como esse programa chegou ao topo pode nos ajudar a compreender a produção cultural contemporânea.

    Como uma série rejeitada mais de 15 vezes pela mídia tradicional conseguiu esse patamar de reconhecimento? A resposta padrão aponta para a análise da volumosa quantidade de dados que a Netflix coleta dos seus clientes. A própria empresa admite a influência dos números nas suas decisões. Segundo a Netflix, algoritmos representam 70% da equação.

    A Netflix acrescenta, porém, que big data não é o único ingrediente para criar séries de sucesso. Apesar da soma elevada, decisivo mesmo são os 30% restantes: a curadoria humana, capaz de “saber que dados ignorar”.

    A fórmula revela-se certeira, mas não infalível, como mostra a diferente aceitação das suas produções. Algumas se convertem em sucesso instantâneo, outras não obtêm a mesma repercussão.

    Em muitos casos, a estratégia representa oferecer mais do mesmo. O que acaba gerando uma onda de nostalgia. Stranger things é bastante associada a produções dos anos 1970 e 1980.

    Não para aí. No começo desse ano, Arquivo X voltou para uma nova temporada de seis episódios. Graças aos serviços de streaming de vídeo, resgates como esse tendem a ser mais comuns. Para Merrill Barr, comentarista de TV da Forbes, não é uma decisão artística, mas financeira. Geralmente a Netflix ou a Amazon fecham contratos generosos para garantir a transmissão da nova leva de episódios pouco depois da exibição na TV.

    Os episódios antigos têm seu interesse renovado. Quem conhece a série quer resgatar o que é familiar e a atenção gerada pelo anúncio de novos capítulos atrai um público novato, grande parte dele constituído de pessoas que eram jovens demais quando a série foi ao ar inicialmente. A inclusão -ou renovação- da série no catálogo desses serviços vira uma nova fonte de renda para os estúdios. Um programa “morto” ressurge lucrativo.

    Se grande parte do que é oferecido ao público recorre ao que as pessoas aceitaram anteriormente, produzir obras inovadoras seria um risco cada vez mais contornado pela indústria cultural?

    A história do entretenimento está cheia de criações bem-sucedidas que foram consideradas previamente de difícil apelo. J. K. Rowling, a autora de Harry Potter, escutou muitos “nãos” antes de publicar seu primeiro livro. A Fox acreditava que Guerra nas Estrelas seria um fracasso tão grande que lançou o filme em menos de 10 salas de exibição dos EUA.

    Hollywood também está mais atenta aos novos tempos. A popularidade nas redes sociais digitais vira fator importante na definição de elenco. Mas, no geral, o modus operandi de Hollywood está cada vez mais megalomaníaco. Predominam os blockbusters: continuações, refilmagens e obras derivadas (games, livros etc.). São grandes orçamentos, que dominam os cinemas, deixando pequeno espaço para obras de médio ou pequeno porte. Essas, para serem financiadas e distribuídas, dependem cada vez mais do aporte de produtores neófitos.

    Como os serviços de streaming, ávidos por rechear seus catálogos com conteúdo próprio. Nesse ano, a Amazon e a Netflix foram às compras com entusiamo no Sundance, o maior festival de filmes alternativos do mundo. São obras autorais, criadas distantes da lógica das métricas. Netflix e derivados não buscam necessariamente retorno financeiro. Apostam na aclamação da crítica e em prêmios, o que traria mais legitimidade artística ao serviços de streaming. Se fracassarem, sem problemas. Afinal, esses filmes custam bem menos do que as grandes produções de Hollywood.

    Muitos cineastas iniciantes ou independentes não questionam essa estratégia. Do contrário. Nos EUA, o objetivo inicial continua a ser a conquista de visibilidade num festival de cinema independente. O passo seguinte não é um filme, mas criar uma série para a TV ou serviço de streaming. Foi o caminho trilhado por Lena Dunham (do seriado Girls), Mark e Jay Duplass (do recente Togetherness) e Jill Soloway (da aclamada Transparent). Eles foram atraídos por orçamentos generosos. E liberdade artística.

    Assim como qualquer boa receita culinária, o sucesso das produções artísticas não depende apenas do rigor em seguir padrões. Mas do tempero especial acrescentado à fórmula.

  • A recriação digital de Peter Cushing em Rogue One reacendeu um debate que já havia surgido no início dos anos 2000, quando Final Fantasy explorou personagens gerados por computador. Desde então, a indústria testou diferentes formas de presença póstuma em cena, como nos casos envolvendo Laurence Olivier e Marlon Brando, ainda que de maneira pontual.

    Apesar dos avanços técnicos, a simulação digital continua encontrando limites perceptivos. Quando colocados lado a lado com atores reais, personagens gerados por CGI tendem a evidenciar sua artificialidade, sobretudo nos detalhes de expressão e movimento. A tecnologia evoluiu, mas a comparação direta ainda expõe diferenças difíceis de neutralizar.

    Nos últimos anos, porém, a discussão foi ampliada, pois o uso de imagens digitais de atores falecidos passou a levantar questões jurídicas e éticas. A indústria audiovisual agora precisa lidar com regras sobre direitos de imagem, consentimento e exploração comercial.

  • A curadoria de Marcelo Ikeda na mostra Cine Nordeste evidencia um momento de reorganização do cinema produzido na região. A programação amplia o repertório historicamente associado ao Nordeste ao reunir obras que dialogam com diferentes gêneros, temas e ambientes, incluindo experiências urbanas e contemporâneas.

    Com isso, o evento contribui para situar o cinema nordestino em um panorama audiovisual mais amplo, sem restringi-lo a recortes temáticos específicos. A mostra também torna essa diversidade mais visível para o próprio público local, que passa a reconhecer na tela situações, espaços e dinâmicas presentes no cotidiano.

    Além do conteúdo narrativo, o recorte proposto evidencia a variedade de modos atuais de criação, financiamento e circulação das obras, reforçando a pluralidade de caminhos adotados pela produção audiovisual da região.

  • Ganhar visibilidade no YouTube se tornou mais complexo com o amadurecimento da plataforma. O fator tempo, decisivo na fase inicial dos vloggers, deu lugar à necessidade de diferenciação clara. Estratégias baseadas apenas em replicar tendências virais ou derivar conteúdos populares passaram a ter retorno cada vez menor.

    A monetização também deixou de ser imediata. Hoje, ela depende de consistência ao longo do tempo e de uma construção gradual de público. Otávio Albuquerque, do canal Rolê Gourmet, aponta que a profissionalização do conteúdo foi determinante para a sustentabilidade do projeto. Ajustes de linguagem, com redução de excessos e maior atenção ao contexto publicitário, ampliaram o interesse de marcas e facilitaram parcerias.

    Nesse cenário, canais de nicho ganham vantagem. A viabilidade de um projeto no YouTube está menos ligada à busca por grandes audiências e mais à clareza temática e à autenticidade do criador. Conteúdos específicos, gastronomia ou arte manual, tendem a construir comunidades mais engajadas e relações mais duradouras com o público.

  • Com os Spectacles, o aplicativo Snapchat transforma sua lógica de plataforma em objeto físico. O dispositivo aposta em um modelo de captura que rompe com o enquadramento retangular clássico, registrando vídeos circulares que se reorganizam conforme a posição do smartphone. Ao adotar uma lente olho de peixe em primeira pessoa, o produto dilui a oposição entre horizontal e vertical e aproxima a experiência da percepção humana.

    As escolhas de design também respondem a questões práticas e de percepção pública. O estojo funciona como unidade de proteção e recarga autônoma, facilitando o uso em mobilidade. Já os LEDs visíveis durante a gravação atuam como aviso explícito de funcionamento, reduzindo preocupações com captação não consentida.

    O produto assume um posicionamento claro como acessório de entretenimento. Em vez de buscar invisibilidade tecnológica, os Spectacles adotam uma estética reconhecível, pensada para contextos informais, onde o uso faz parte da cena e não tenta se ocultar dela.

  • Cora Rónai defende que fotografar em museus não é um ato de distração, mas sim uma forma ativa de prestar atenção. Para ela, o uso da câmera obriga o visitante a interagir com o espaço e a observar as obras com mais cuidado para compor a imagem.

    Ela também faz uma distinção importante sobre o valor das imagens. Embora as fotos oficiais dos catálogos sejam tecnicamente perfeitas, as fotos “imperfeitas” tiradas pelo público tornam-se insubstituíveis. Elas deixam de ser apenas um registro da arte para se tornarem a prova pessoal e única daquela experiência.

  • Cassidy Curtis, do Google Spotlight Stories, destaca uma mudança fundamental na narrativa em RV: a transferência do controle do que é mostrado na tela. Diferente do cinema tradicional, onde o diretor dita exatamente o que deve ser visto através do enquadramento, na realidade virtual o espectador decide para onde olhar, transformando o filme em um “espaço vivo” de exploração livre.

    Essa liberdade obriga a história a se adaptar ao ritmo do público. A ação principal muitas vezes precisa “esperar” até que o espectador foque no personagem certo, exigindo uma nova lógica de tempo e encenação.