Raccord

Cinema e séries em contínua conexão. Entre planos, obras, épocas e olhares. Curadoria, notícias e tutoriais.

  • Lost representa o sonho de muitos roteiristas: ideias criativas e pouco convencionais foram acolhidas, não rejeitadas por supostamente serem estranhas para o público. Ainda assim, a série não foi um ponto de ruptura isolado, mas sim o resultado do amadurecimento de tendências já presentes na televisão.

    Na época do lançamento, a internet já havia consolidado-se como espaço de conexão e colaboração entre fãs. Esses grupos preencheram o hiato entre a exibição nos Estados Unidos e o acesso local, compartilhando e traduzindo episódios.

    Essa prática já existia nos anos 1990, quando fãs de Arquivo X trocavam fitas VHS, organizavam encontros para assistir episódios inéditos e a série conquistou público amplo, tornando-se fenômeno cultural e chegando à grande tela enquanto ainda estava em exibição, algo raro na época.


    Participação do público e narrativa transmídia

    Lost incorporou e expandiu práticas culturais como a produção de conteúdo pelos fãs (fan made) e a narrativa transmídia, aproveitando a natureza aberta da série. Diferente de filmes e livros, que são obras completas, um seriado permite a construção progressiva da história durante sua exibição, incentivando a colaboração criativa do público.


    Evolução dos formatos narrativos

    Outras produções também buscaram inovação. Heroes adotou o formato de minissérie dentro da série, apresentando arcos fechados a cada temporada. Já Twin Peaks, de David Lynch, exemplificou os riscos do suspense prolongado, sofrendo queda significativa de audiência após a primeira temporada, mas abriu caminho para narrativas mais complexas na televisão.

    Durante os anos 1990, séries como Seinfeld desafiaram formatos tradicionais ao focar em situações cotidianas sem grandes arcos narrativos, enquanto a HBO introduziu produções adultas que ampliaram os limites da televisão. Buffy, a Caça-Vampiros destacou-se por combinar gêneros e estilos de forma inovadora, prática hoje comum, mas então pioneira.


    Perspectivas futuras na era digital

    Considerando o contexto atual, é possível imaginar o impacto ampliado que essas séries teriam tido se seu auge tivesse ocorrido na era digital, com intensa participação e criação paralela dos fãs. Os exemplos recentes sugerem apenas o início de uma transformação que a internet e produtores independentes devem aprofundar, expandindo os limites da narrativa audiovisual.

  • Hoje, às 22h, a HBO exibe o último episódio da série “The Sopranos”, um marco cultural na TV. Nos EUA, o ultimo episódio da produção sobre uma família de mafiosos foi sintonizado em 12 milhões de lares.

    O programa é considerado por muitos a melhor série dramática de todos os tempos. Para decifrar seu sucesso, muitos estudos acadêmicos estão sendo produzidos. Boa parte deles foi reunida em “Reading The Sopranos” (Lendo os Sopranos), uma coletânea de ensaios sobre o programa com análise de diversas áreas.  

    Outro livro sobre o tema é “This Thing of Ours”, de David Lavery, professor da cadeira de estudos televisivos da Universidade Brunel (EUA). O título faz alusão à expressão que os personagens usam para se referir à máfia (“Essa coisa nossa”).

  • Em tempos de frenesi, a simplicidade se torna um refúgio. Um olhar atento revela a beleza contida em algo simples, que toca a alma. Assim como a personagem principal de ‘A Máquina’, que busca compartilhar o mundo com sua amada, o filme nos presenteia com uma experiência genuína. 

    A obra de Adriana Falcão, agora nas telonas, nos convida a apreciar a vida com olhos mais atentos e corações mais abertos. Como disse Jean-Michel Frodon, o cinema nos permite compreender o mundo de forma única. 

    Obrigado, Antônio de Dona Nazaré.

  • “500 Dias com Ela” (500 Days of Summer, 2009) não conquistou grandes bilheterias nem espaço na maioria das premiações de Hollywood. Ainda assim, tornou-se um sucesso, aquele tipo de êxito construído pela adesão espontânea do público.

    A história acompanha Tom Hansen, um jovem arquiteto que trabalha escrevendo cartões comemorativos, e sua relação com Summer Finn. A narrativa é contada de forma não linear, alternando momentos de encantamento e frustração ao longo dos 500 dias em que Tom projeta expectativas românticas sobre uma relação que nunca foi exatamente recíproca. O filme observa menos o amor em si e mais a distância entre o que sentimos e o que o outro realmente oferece.

    O filme venceu na categoria de melhor roteiro no Spirit Awards, principal premiação do cinema independente, mas sua consagração verdadeira ocorreu na internet. A obra ganhou força a partir do boca a boca digital, gerando homenagens, recriações de cenas e leituras afetivas. A sequência de dança — talvez o momento mais emblemático do filme — tornou-se símbolo raro da alegria masculina no cinema contemporâneo, inspirando desde vídeos de fãs até propostas de casamento.

    E o que há de especial em “500 Dias com Ela”?

    François Truffaut propôs uma distinção entre filmes centrados em situações e filmes orientados por personagens. Em muitos casos, predomina um lado ou outro: ou a trama engole as pessoas em cena, ou os personagens são fortes, mas a narrativa se esgarça. “500 Dias com Ela” encontra o equilíbrio. O resultado nasce da combinação entre roteiro inventivo, direção segura (mesmo sendo o primeiro longa de Marc Webb), atuações carismáticas de Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel e uma trilha sonora que dialoga intimamente com a história.

    Há também um componente intangível: trata-se de um filme que eleva o espírito, mesmo sendo agridoce. Ele emociona sem recorrer ao sentimentalismo fácil que domina boa parte das comédias românticas. Não usa a fragilidade do espectador como atalho para lágrimas rápidas. Ao contrário, convida à identificação pelo reconhecimento da experiência humana.

    Valorizar esse tipo de obra não significa rejeitar filmes densos, reflexivos ou tecnicamente grandiosos. Mas há um lugar especial para os filmes que entram na nossa biografia afetiva, assim como certas músicas compõem a trilha sonora das nossas vidas. “500 Dias com Ela” pertence a essa categoria: consegue unir emoção genuína e senso estético, sem abrir mão da sutileza.

    Mesmo que a ficção não ofereça soluções para a vida real, ela pode inspirar mudança. Nesse sentido, o filme segue relevante. Não como fórmula, mas como experiência.

    PS: Já assisti o filme 5 vezes.

  • Em sintonia com o dia dos namorados, um post para começar o projeto com afeto. Pouco tempo depois do surgimento do cinema, a tela grande já exibia seu primeiro beijo. Coube a um dos inventores da sétima arte, Thomas Edison, registrá-lo: The Kiss (1896). Os 23 segundos de projeção revelam mais do que um simples selinho.