O cinema acontece entre os planos.
Um plano isolado é fragmento.
Duas mãos em close, um rosto que se desvia, uma porta que se fecha. O sentido nasce no encontro com o próximo quadro. É na aproximação invisível entre imagens que o cinema acontece. É no raccord.
Raccord é a arte de conectar fragmentos descontínuos em fluxo contínuo de significado.
O gesto que começa em 1955 e encontra ressonância em 2026.
O olhar que atravessa décadas.
A montagem silenciosa que faz Ozu dialogar com Greta Gerwig, que permite reconhecer Hitchcock refletido em Jordan Peele.
Raccord é onde o cinema acontece.
É também onde a crítica precisa operar.
Por que “Raccord”
Cinema sempre foi linguagem sem fronteiras.
As ideias mais decisivas nasceram do fluxo: filmes norte-americanos vistos em Paris, títulos japoneses debatidos em Nova York, obras brasileiras projetadas em Cannes.
Raccord é um termo francês da técnica cinematográfica que não tem tradução exata.
“Continuidade” é técnica.
“Emenda” é mecânica.
Raccord é a decisão de fazer fragmentos conversarem.
A palavra carrega a história da cinefilia.
Usá-la é estabelecer raccord com Bazin, Truffaut, Rivette.
É afirmar a crítica como tradição viva, não como reinvenção isolada a cada geração.
O que Raccord sustenta
Curadoria precisa, não acumulação.
Análise aprofundada, não reação imediata.
Resgate com critério, não nostalgia automática.
Atenção ao presente sem apagamento do passado.
Respeito à inteligência de quem lê.
O cinema não acontece no plano
Acontece entre planos.
No corte invisível.
Na conexão construída.
Acontece no raccord.
É nesse espaço que este projeto se posiciona: revelando conexões, iluminando diálogos, mantendo passado e presente em conversa contínua.
Raccord, a crítica que conecta. Filmes e séries são as atrações principais, mas outras artes visuais também entram em cartaz.
Um projeto sobre continuidade
O audiovisual contemporâneo vive sob fragmentação extrema. Inúmeras plataformas, algoritmos que isolam, discursos que opõem “cinema de verdade” a “cultura pop”, como se houvesse ruptura onde sempre existiu contato.
Raccord rejeita essa falsa cisão.
Um filme de 1962 que reaparece em um catálogo digital não é anacronismo. É raccord cultural. Passado e presente encontrando continuidade.
Uma série de 2025 que dialoga com o noir dos anos 1940 não pratica nostalgia. Realiza montagem viva. Cinema em conversa consigo mesmo através do tempo.
O trabalho crítico consiste em tornar essas ligações visíveis.
Mostrar como o filme Anatomia de uma Queda estabelece vínculo com Bresson.
Como a série The Bear encerra planos que Cassavetes abriu.
Como cada obra existe em diálogo permanente com a história do audiovisual, desde que haja disposição para observar o ponto de conexão.
Um projeto sobre escolha
Todo raccord é decisão.
Que plano vem depois.
Que relação se estabelece.
Que sentido emerge da justaposição.
Curadoria é montagem.
Não se exibe tudo. Seleciona-se o essencial, no momento adequado, na ordem que revela. O ruído é cortado. O que importa é conectado.
Por isso não há listas infinitas.
Há seleções precisas.
O clássico que retorna não por prestígio acumulado, mas por diálogo com o presente.
A série recente que não apenas funciona, mas estabelece ligação com uma linguagem em construção há décadas.
O filme negligenciado que, observado atentamente, revela camadas antes invisíveis.
Um projeto sobre perspectiva
Raccord é técnica elementar. Um personagem olha para fora de quadro. O corte revela o que era visto. O sentido se completa.
A crítica opera de forma análoga.
A função é orientar o olhar.
Não se pratica crítica sem pausa para a reflexão. A análise surge quando há algo a iluminar.
Não se resgata obra por nostalgia. A retomada ocorre quando o passado esclarece o presente.
Cada texto é plano escolhido com rigor.
Cada curadoria é sequência montada com intenção.
Não há agregação. Há edição (no sentido cinematográfico do termo).
Um projeto sobre linguagem viva
Raccord não parte da ideia de morte do cinema.
Também não idealiza um passado supostamente superior.
Nem separa cinema e série como territórios incompatíveis.
A linguagem audiovisual é fluxo contínuo.
Transforma-se, desloca-se, reconfigura-se, mas mantém continuidade.
Kiarostami estabelece raccord com Agnès Varda. Varda com Linklater. Linklater com Spike Jonze. Spike Jonze com Almodóvar.
Não há hierarquia. Há conversa.
O interesse recai sobre obras que expandem a linguagem, criam conexões inesperadas e mantêm o cinema em movimento, independentemente da época ou da tela.
Um projeto sobre confiança
O raccord pressupõe reconhecimento.
Reconhecimento da elipse como forma de construção de sentido.
Reconhecimento da conexão como algo a ser completado no intervalo entre planos.
Reconhecimento de uma inteligência interpretativa em operação.
A crítica aqui parte do mesmo princípio.
Não se subestima.
Não se explica em excesso.
Não se reduz o complexo.
A análise busca responder por que uma obra importa, como ela se insere na história do cinema e que caminhos abre adiante.