A Festa Nunca Termina (24 Hour Party People, 2002) permanece como uma interpretação assumidamente subjetiva da cena musical de Manchester. Dirigido por Michael Winterbottom e escrito por Frank Cottrell Boyce, o filme adota um narrador não confiável para misturar fatos históricos e exagero assumido. Exibido no Festival de Cannes no ano de seu lançamento, a obra se destacou justamente por essa recusa em separar verdade e lenda.
Steve Coogan interpreta Tony Wilson, jornalista que, após assistir ao lendário show dos Sex Pistols em 1976, se torna uma das figuras centrais da música britânica ao fundar a Factory Records. A narrativa acompanha a ascensão e o colapso da gravadora entre 1976 e 1992, atravessando o pós-punk do Joy Division, a reinvenção eletrônica do New Order e a explosão hedonista dos Happy Mondays. Tudo é contado com humor e autoconsciência.
A produção opera deliberadamente na fronteira entre ficção e documentário. A fotografia utiliza vídeo digital para criar uma textura crua, que incorpora imagens de arquivo dos anos 1980 e reforça o caráter instável do relato. Um dos feitos mais notáveis do design de produção foi a reconstrução integral do interior da Haçienda em um armazém, já que o prédio original havia sido demolido.
Além de Coogan, o elenco reúne performances marcantes de Andy Serkis, Paddy Considine e John Simm. Em coerência com a lógica da própria Factory, o filme recebeu um número oficial de catálogo, FAC 401, reforçando sua condição de extensão simbólica do selo. Em 2019, o The Guardian incluiu a obra entre os 50 melhores filmes do século XXI.
Mais do que um relato factual, A Festa Nunca Termina captura o espírito de uma época em que criatividade e excesso moldaram uma cena inteira. Winterbottom não busca organizar o passado, mas celebrar sua desordem. Quando a lenda é mais interessante do que a verdade, a lenda prevalece.
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