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Ao longo de sua história, o cinema romântico alterna momentos de questionamento e acomodação às fórmulas tradicionais. Em muitos filmes, a relação amorosa aparece como idealização, enquanto aspectos concretos da vida a dois permanecem fora de cena. Conflitos e escolhas entre afetos quase nunca entram na narrativa, produzindo um retrato do amor que privilegia o conforto emocional em detrimento da complexidade das relações reais.

Grande parte das comédias românticas evita enfrentar dimensões essenciais da vida a dois. O sexo costuma ser tratado de maneira pudica, quase ornamental, como Woody Allen ironiza em Maridos e Esposas (Husbands and Wives, 1992). Aspectos como finanças, renúncias cotidianas e conflitos concretos também desaparecem da tela. Nos romances hollywoodianos, os personagens vivem em um universo onde o cartão de crédito não tem limite e amar não implica custo, escolha ou consequência.

Quando o sexo aparece, , ele frequentemente aparece vinculado à culpa, ao perigo ou à punição moral, como em Infidelidade (Unfaithful, 2002) e Atração Fatal (Fatal Attraction, 1987), ambos dirigidos por Adrian Lyne. Nessa lógica narrativa, o prazer parece existir apenas fora do casamento, mas vem acompanhado de um preço alto.

Outra fragilidade recorrente do gênero é estrutural: muitas narrativas concentram-se na jornada de transformação masculina, enquanto a mulher permanece pouco desenvolvida como personagem. Em vez de sujeito da relação, ela se converte na redenção do protagonista. O modelo se repete em diversas comédias românticas: homens “falhos” que precisam ser redimidos, mulheres reduzidas a figuras projetivas e finais conciliadores preservados mesmo quando o conflito aponta para outra direção.

Em muitos casos, as personagens femininas são deliberadamente esvaziadas para funcionarem como superfícies de identificação do público. Quanto menos características próprias, maior a possibilidade de projeção.

Há exceções. Filmes como Sintonia de Amor (Sleepless in Seattle, 1993) sugerem outra abordagem, em que a protagonista tem algo a perder e a busca amorosa nasce de uma tensão ética e afetiva real. Ainda assim, boa parte do cinema romântico recente parece mais interessada em oferecer consolo emocional a indivíduos solitários ou desiludidos do que em explorar relações concretas entre pessoas singulares.

O foco se desloca: não se deseja alguém, deseja-se um relacionamento. O parceiro passa a preencher um vazio, não a resultar de um encontro significativo. Quando a convivência revela o outro real, surgem frustração e tentativas de moldá-lo a expectativas nunca explicitadas.

Por outro lado, alguns filmes contemporâneos apresentam um olhar mais generoso, ainda que igualmente idealizado. Em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004), Os Nomes do Amor (Le nom des gens, 2010) e Toda Forma de Amor (Beginners, 2010), o amor aparece como potência transformadora, e as mulheres são retratadas como figuras complexas, inspiradoras e cheias de vida. Trata-se de outra forma de idealização, mas que amplia o horizonte de sensibilidades representadas.

Em Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995) e Antes do Pôr do Sol (Before Sunset, 2004), o vínculo nasce do diálogo, da curiosidade e do desvelamento gradual do outro. Não há atalhos narrativos nem promessas fáceis: há tempo, dúvida e risco, o que torna a experiência amorosa mais humana.

No fim, as grandes histórias de amor do cinema sobrevivem quando o relacionamento deixa de ser fórmula e passa a ser encontro, um processo em que dois sujeitos se afetam e se transformam mutuamente. A questão que permanece é sempre a mesma: diante do amor, vale continuar? Para Jesse e Celine — e para nós — a resposta nunca é simples, e é justamente aí que reside sua força dramática.

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