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Após o divisor de águas “Santiago”, a carreira de João Moreira Salles trilhou um novo caminho, marcado pela busca por expandir as fronteiras do documentário, mesclando a observação do cinema direto com a reflexão pessoal. Essa fase, menos prolífica em quantidade, ganha um novo capítulo com o lançamento de “Minha terra estrangeira” na 30ª edição do É Tudo Verdade, festival com o qual o cineasta mantém uma longa e frutífera relação.

Em entrevista, Salles explora essa evolução, desde a época em que festivais como o ETV eram a principal janela para o documentário brasileiro, até o cenário atual de abundância de plataformas. Para ele, o valor de um festival reside hoje na curadoria, na capacidade de selecionar, em meio a uma vasta produção, obras que se destacam e refletem um olhar particular, contribuindo para o debate sobre o gênero.

O diretor também comenta a democratização da produção audiovisual impulsionada pela tecnologia, desde as câmeras digitais até os smartphones, que possibilitam narrativas antes inviáveis, como os filmes de Sandra Kogut. Em sintonia com esse pensamento, ele recorda a preocupação de Eduardo Coutinho com a velocidade das imagens na televisão e especula sobre como o cineasta abordaria a estética das redes sociais, acreditando que ele as colocaria no centro da discussão.

Sobre a inteligência artificial no cinema, Salles a encara como mais uma ferramenta que trará novas formas de contar histórias. Em relação a “Minha terra estrangeira”, codirigido com Louise Botkay e o Coletivo Lakapoy, ele o situa mais próximo de seu filme “Entreatos”, revelando que a colaboração trouxe diferentes perspectivas para a narrativa, acompanhando o líder indígena Almir Suruí (filmado pelo Lakapoy) e sua filha, a ativista Txai Suruí (filmada por Salles) durante as eleições de 2022.

O título do documentário remete à condição dos povos originários no Brasil, tratados como estrangeiros em sua própria terra, sendo a referência ao filme de seu irmão Walter Salles (“Terra Estrangeira”) é uma feliz coincidência.

“Minha terra estrangeira” será exibido gratuitamente no Rio de Janeiro e em São Paulo durante o festival É Tudo Verdade, com sessões seguidas de debate no Rio. A data de lançamento comercial ainda não foi divulgada. 

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