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Flora e Filho: Música em Família (Flora and Son, 2023) é o novo longa de John Carney, disponível na Apple TV+. O diretor irlandês retorna ao terreno do drama musical intimista, agora ancorado em relações familiares e mediações tecnológicas. A produção aposta em proximidade emocional, canções e encenação econômica, marcas recorrentes da filmografia de Carney.

A história acompanha Flora, mãe solo que vive em Dublin com o filho adolescente Max, jovem em conflito com a escola e com a própria família. Ao encontrar um violão descartado, Flora tenta criar uma ponte com o filho por meio da música. A iniciativa leva ambos a aulas online com Jeff, músico em Los Angeles que passa a orientar Max à distância. No elenco, Eve Hewson interpreta Flora, Orén Kinlan vive Max e Joseph Gordon-Levitt assume o papel do professor.

A direção de Carney mantém abordagem discreta e funcional. A câmera reforça a intimidade entre os personagens e a sensação de cotidiano. A fotografia adota iluminação naturalista e paleta contida, explorando os espaços reduzidos do apartamento de Flora sem recorrer ao excesso de sombra ou à estilização gratuita. A cidade de Dublin aparece menos como cartão-postal e mais como ambiente vivido, coerente com o tom do filme.

A montagem trabalha com ritmo narrativo regular, alternando conflitos domésticos e momentos musicais integrados à ação. As canções originais surgem sem números performáticos destacados, mantendo a lógica da música como extensão dramática dos personagens. Carney evita transformar as composições em espetáculo separado da narrativa.

No roteiro, o diretor aposta novamente em personagens falhos e muitas vezes ásperos. Flora não é idealizada como mãe afetuosa, e Max evita o arquétipo do adolescente sensível redimido pela arte. O texto demonstra autoconsciência ao discutir o próprio fazer musical, como quando Flora critica uma composição de Max afirmando que “músicas memoráveis precisam de refrão marcante”, expondo as convenções que filmes musicais geralmente utilizam.

As atuações sustentam bem o projeto. Hewson constrói uma personagem impulsiva e contraditória, evitando sentimentalismo excessivo. Kinlan transmite insegurança e resistência com naturalidade. Já a presença de Gordon-Levitt funciona mais como apoio narrativo do que como eixo dramático, mantendo-se em segundo plano.

O principal impasse de Flora and Son surge na reta final. Após desenvolver conflitos de forma honesta e evitar soluções fáceis durante boa parte da narrativa, o filme opta por um desfecho conciliador. A resolução suaviza tensões que haviam sido construídas com cuidado, reduzindo a complexidade emocional apresentada anteriormente.

No contexto da filmografia do diretor, o filme confirma a consistência de um método, mas também evidencia seus limites. A música segue como ferramenta de aproximação humana, repetindo o recurso de Once (2007) e Sing Street (2016) sem expandir suas possibilidades. Flora e Filho é competente, bem interpretado e tecnicamente sólido, mas não amplia o repertório de Carney nem tensiona sua fórmula estabelecida.

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