Os lançamentos em realidade virtual introduzem novas possibilidades para a narrativa audiovisual. Enquanto o cinema tradicional organiza a experiência a partir do enquadramento, do corte e da condução do olhar, a imagem em 360º dissolve a ideia de tela e desloca o espectador para o centro da cena. O desafio deixa de ser técnico e passa a ser linguístico, exigindo a articulação de narrativa, ritmo e sentido em um espaço contínuo e esférico.
Na realidade virtual, a gramática clássica da montagem soa deslocada. O corte, elemento central do cinema, tende a ser substituído por estratégias de continuidade, som direcional, iluminação e movimento interno de cena, que orientam a atenção sem impor um ponto de vista único. A experiência se aproxima menos do cinema narrativo tradicional e mais de uma presença encenada, onde o espectador participa ativamente da construção do olhar.
Essa ruptura também se manifesta na prática de produção. Como a câmera registra todas as direções simultaneamente, não existe fora de quadro. A equipe técnica precisa desaparecer do espaço filmado, o que exige soluções inventivas. Diretores e continuístas são também figurantes. Cada decisão técnica passa a ser também uma decisão narrativa.
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