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[spoiler] David Chase, criador de The Sopranos, revelou que encontrou o que considera um final ideal para sua série, inspirado no desfecho de Seinfeld, no qual todos os personagens acabam na prisão. Chase acredita que essa poderia ter sido uma conclusão mais adequada para The Sopranos, que teve um encerramento aberto. [spoiler]

Contudo, o problema não está só na cena final, mas no episódio inteiro, que parece apressado e menos criativo em comparação com episódios emblemáticos da série, como College, Funhouse, Employee of the Month, Pine Barrens, Whitecaps e Long Term Parking, este último marcando a saída de uma personagem favorita.

Prefiro avaliar temporadas isoladamente, especialmente em séries que trabalham tramas fechadas por ciclo, como a segunda temporada de Justified e a terceira de Damages, ambas memoráveis.

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Muitos fãs depositam grandes expectativas nos finais, o que pode prejudicar a avaliação da série como um todo. Esperar que um episódio encerre com todas as respostas pode ser equivocado. O final de Lost, por exemplo, foi poético e distinto do que alguns aguardavam, mas coerente com a proposta da série que misturava ciência e misticismo. Apesar de não ter atingido a qualidade do encerramento de Six Feet Under, foi uma solução inventiva.

A busca por finais eletrizantes, repletos de reviravoltas, pode diminuir a importância da trajetória narrativa. Em gêneros como suspense, finais surpreendentes são esperados, mas o encerramento não deve ser a única referência para avaliar a obra.

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François Truffaut já destacou que o cinema americano privilegia a trama, enquanto o europeu foca nos personagens, o que explica o ritmo acelerado de muitos filmes de Hollywood e a narrativa mais pausada do cinema europeu.

Na televisão atual, produções como The Wire são chamadas de “romances visuais”, misturando elementos literários como desenvolvimento lento, personagens complexos e atenção ao texto. Muitas vezes, a forma da narrativa é mais relevante que a trama em si.

Assistir uma novela só pelo último capítulo é como reduzir toda a experiência a finais previsíveis. Diego Guebel, diretor-geral de conteúdo da Band, afirma não gostar de programas que “aprisionam o público por dias em que nada acontece”, qualificando-os como “hipnose”.

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Don Draper, personagem de Mad Men, afirmou: “meus piores medos surgem da antecipação”. Por isso, mesmo desejando um final impactante, a jornada até ele é o que realmente importa.

O jornalista Álvaro Pereira Jr sintetiza: “Se é para sofrer, a gente topa. Mas tem de haver uma troca, um pote de ouro no final desse caminho tortuoso. Ou pote nenhum, mas aí é preciso que o percurso, ainda que difícil, apresente beleza e originalidade.”

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