Raccord

Cinema e séries em contínua conexão. Entre planos, obras, épocas e olhares. Curadoria, notícias e tutoriais.

A versão norte-americana da trilogia Millennium estreou recentemente no Brasil. Esta não é a primeira adaptação cinematográfica da obra de Stieg Larsson. Em 2009, uma equipe europeia lançou Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, A Menina Que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar, obtendo resultados sólidos e boa recepção crítica.

Se o leitor não conhece a trama sobre a parceria entre um jornalista e uma hacker na investigação do desaparecimento de uma jovem rica, o ideal é interromper a leitura neste ponto, pois a análise conterá spoilers.

Ao assistir à nova adaptação já conhecendo o desfecho da história, a atenção desloca-se menos para o enredo e mais para o contraste entre as duas versões. A partir daí, surge a pergunta central: como cada filme constrói Lisbeth Salander e seus vínculos com Mikael Blomkvist?

David Fincher, diretor de obras como Seven, Clube da Luta e Zodíaco, começa sua leitura do texto de Larsson com forte impacto visual, especialmente nos créditos iniciais. O maior orçamento resulta em refinamento técnico, mas a inserção no modelo hollywoodiano traz mudanças estruturais.

A escolha do elenco altera a percepção do protagonista. Na versão europeia, Mikael parece de fato fragilizado, em crise financeira e pessoal, o que torna sua decisão de aceitar o trabalho algo inevitável. Já o Mikael de Daniel Craig surge mais confiante e socialmente amparado. O trabalho aparece menos como sobrevivência e mais como alternativa possível. A tensão que sustentava o personagem perde intensidade.

As diferenças também estão no tratamento narrativo. A nova adaptação explica mais, amarra pontas e explicita motivações. Em alguns momentos, isso aprofunda detalhes da trama. Em outros, reduz a sutileza e transforma o filme em uma experiência mais guiada. Há sublinhamento visual constante: objetos e ações relevantes são enfatizados antes que ganhem função dramática, o que diminui o espaço para ambiguidade.

Ao mesmo tempo, a dinâmica entre Mikael e Lisbeth sofre alteração significativa. Na versão europeia, a proximidade nasce da convivência e do trabalho conjunto. A relação surge gradualmente, e a confiança de Lisbeth se constrói a partir da experiência compartilhada. Na versão americana, os dois passam mais tempo separados durante a investigação. A divisão de tarefas torna o processo mais realista, mas a intimidade entre os personagens parece menos orgânica.

Quanto à interpretação de Lisbeth, não se trata de definir uma “melhor” versão. Noomi Rapace constrói uma personagem que transmite força contida, hostilidade defensiva e resiliência. Rooney Mara apresenta outra leitura: sua Lisbeth é mais introspectiva, vacilante e marcada pelo medo. Ambas são consistentes, mas representam caminhos distintos. Com isso, a personagem deixa de ser somente símbolo de potência e resistência e passa a expressar vulnerabilidade.

O filme de Fincher também busca justificar comportamentos e humanizar Lisbeth de modo mais explícito, o que altera seu impacto simbólico. Na comparação, a versão europeia preserva maior senso de urgência e crueza emocional, enquanto a norte-americana valoriza clareza narrativa e acabamento técnico.

Para além do conteúdo artístico, chama atenção o volume de product placement. Marcas aparecem de forma evidente, nem sempre coerente com a lógica de consumo contemporânea.

Em síntese, a nova adaptação não é inferior por princípio, mas carrega o peso da comparação. Suas qualidades técnicas são inegáveis, porém a perda de densidade psicológica em alguns personagens, especialmente Lisbeth, reduz parte da contundência presente na leitura europeia. Ao pensar na personagem que marcou a cultura recente, a imagem que permanece mais forte continua sendo a de Noomi Rapace.

Posted in

Deixe um comentário