
“500 Dias com Ela” (500 Days of Summer, 2009) não conquistou grandes bilheterias nem espaço na maioria das premiações de Hollywood. Ainda assim, tornou-se um sucesso, aquele tipo de êxito construído pela adesão espontânea do público.
A história acompanha Tom Hansen, um jovem arquiteto que trabalha escrevendo cartões comemorativos, e sua relação com Summer Finn. A narrativa é contada de forma não linear, alternando momentos de encantamento e frustração ao longo dos 500 dias em que Tom projeta expectativas românticas sobre uma relação que nunca foi exatamente recíproca. O filme observa menos o amor em si e mais a distância entre o que sentimos e o que o outro realmente oferece.
O filme venceu na categoria de melhor roteiro no Spirit Awards, principal premiação do cinema independente, mas sua consagração verdadeira ocorreu na internet. A obra ganhou força a partir do boca a boca digital, gerando homenagens, recriações de cenas e leituras afetivas. A sequência de dança — talvez o momento mais emblemático do filme — tornou-se símbolo raro da alegria masculina no cinema contemporâneo, inspirando desde vídeos de fãs até propostas de casamento.
E o que há de especial em “500 Dias com Ela”?
François Truffaut propôs uma distinção entre filmes centrados em situações e filmes orientados por personagens. Em muitos casos, predomina um lado ou outro: ou a trama engole as pessoas em cena, ou os personagens são fortes, mas a narrativa se esgarça. “500 Dias com Ela” encontra o equilíbrio. O resultado nasce da combinação entre roteiro inventivo, direção segura (mesmo sendo o primeiro longa de Marc Webb), atuações carismáticas de Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel e uma trilha sonora que dialoga intimamente com a história.
Há também um componente intangível: trata-se de um filme que eleva o espírito, mesmo sendo agridoce. Ele emociona sem recorrer ao sentimentalismo fácil que domina boa parte das comédias românticas. Não usa a fragilidade do espectador como atalho para lágrimas rápidas. Ao contrário, convida à identificação pelo reconhecimento da experiência humana.
Valorizar esse tipo de obra não significa rejeitar filmes densos, reflexivos ou tecnicamente grandiosos. Mas há um lugar especial para os filmes que entram na nossa biografia afetiva, assim como certas músicas compõem a trilha sonora das nossas vidas. “500 Dias com Ela” pertence a essa categoria: consegue unir emoção genuína e senso estético, sem abrir mão da sutileza.
Mesmo que a ficção não ofereça soluções para a vida real, ela pode inspirar mudança. Nesse sentido, o filme segue relevante. Não como fórmula, mas como experiência.
PS: Já assisti o filme 5 vezes.
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